Entrevista a John Filipe

John Filipe é Realizador, Ilustrador e Designer, além de se interessar por fotografia. Este jovem multifacetado é um verdadeiro artista em várias áreas. Prova disso são os excelentes videoclips de Linda Martini, More Than A Thousand e Before The Torn, que ele próprio realizou e produziu (apesar de no caso dos More Than A Thousand ter feito o projecto a par com Fernando Mamede), três bandas nacionais de renome e respeito
Venha conhecer este jovem cujo talento ultrapassa as fronteiras nacionais.

1 – Começaste a desenhar e a interessar-te pelo mundo dos audiovisuais desde pequeno ou foi algo que foi nascendo com o tempo?

Desde a escola primária que o meu sonho era ser designer de video-jogos.

2- Apesar de pertenceres à geração multimédia, preferes a animação tradicional ou a que é feita com recurso a computadores? Explica-nos um pouco as maiores diferenças entre desenvolver um projecto de forma digital ou tradicional.

Pertenço à geração multimédia, mas até aos meus 10 anos ( 1995 ) não existia muita animação digital comercial, ou seja, antes disso tudo o que eu consumia de animação era animado tradicionalmente, o que viria inevitavelmente a ser a minha principal referencia.
Não prefiro uma à outra … num filme há vários aspectos a considerar no qual a técnica é uma delas. No entanto, uma boa historia e boas personagens são sempre as coisas mais importantes e influentes para que o filme seja bom ou vazio . Existem bons e maus filmes de animação tradicional. Existem bons e péssimos filmes de animação digital.
A minha, usualmente sempre que posso, é híbrida, misturo digital com tradicional e com filme. A percentagem até hoje foi sempre maior em digital… Digital é mais rápido de executar e os clientes são chatos com timmings e não pagam para fazer em tradicional.

3 – De onde vem a tua inspiração para os teus trabalhos? O que é que mais te inspira enquanto artista?

Tudo.

4 – Estiveste envolvido na realização e produção de alguns videoclips bastante importantes na música portuguesa dos últimos anos, nomeadamente o da Juventude Sónica de Linda Martini, a Roadsick dos More Than A Thousand e a Last Night’s Nightmare dos Before The Torn. Como é que desenvolves esses projectos? És tu que tens a ideia principal e vais desenvolvendo com os artistas? Fala-nos um pouco desse processo.

Vou responder pela Roadsick na próxima pergunta.
Começando pelos Before The Torn, são pessoas muito queridas, foi um prazer trabalhar com eles. O budget era muito pequeno, então foi tudo canalizado para trazer algo de novo ao bandshot, ou seja, todas as situações de deformação das caras ( animação tradicional ) e CGI das caveiras deles. Pessoalmente estou farto de bandshots, tive de arranjar algum desafio que trouxesse alguma novidade para além da banda a tocar e que fizesse sentido com a música, no final acabou por funcionar muito bem e foi algo novo em Portugal para um videoclip de metal com budget tão reduzido .

Saber que vais realizar um videoclip para um banda com o nome e projecção dos Linda Martini é sentir a verdadeira pressão daquilo que vai ser visto por toda a gente do teus país e altamente criticado se não estiver ao nível da música.
Conhecia apenas o Hélio dos trabalhos que fiz com ele para PAUS, e foi também através dele que surgiu o convite, depois de lhe confessar que adorava Linda Martini.
Não conhecia os membros da banda e de repente dou-me comigo sentado com eles a olharem para mim sem me conhecerem de lado nenhum, completamente reticentes e desconfiados do género “quem é que é este gajo? e o que é que vai fazer com Linda Martini … ? ” , apenas o Hélio lançava para o ar ” Eu confio no trabalho do John, com ele estou a vontade … ”
Felizmente deram-me a oportunidade e passado exactamente 5 minutos de estarmos a filmar já sentia elogios da parte da banda, daquilo que estava a ser feito e uma descontracção e entrega total por parte deles.
Acabou por ser um trabalho excelente sem stress algum, resultando num video com uma mensagem e uma história lindíssima e intimista entre eles, que foi recebida pelos fãs ( e até não pelos que não era fãs ) com a melhor recepção e criticas possíveis.

5 – Como foi para ti a produção da Roadsick dos More Than A Thousand? Este videoclip foi recebido quase como um verdadeiro hino da amizade entre muitos fãs da banda, sendo que as pessoas que aparecem no videoclip são realmente os amigos da banda que sempre os apoiaram.

Roadsick, é o ” video dos meus amigos de longa data ” e mais próximos. Antes de continuar quero deixar que o video foi realizado a meias por mim e por um colega de trabalho Fernando Mamede.
Durante as filmagens o ambiente era o melhor possível, foram cerca de 14 dias a filmar e a acompanhar a tour sempre com boa disposição, mas… no final fazendo as contas foi um PESADELO DE TRABALHO, mas não no mau sentido! No sentido de ter sido mesmo um trabalho esgotante fisicamente e mentalmente.
Fiquei cerca de 1 mês depois com dores de costas de filmar, e com o cérebro em papa depois de ver 1000 GB de filmagens e montar dali um puzzle…
A ideia já tinha sido definida inicialmente pela banda, queriam mostrar pessoas, amigos, fãs, pessoas, amigos, fãs, pessoas, amigos, fãs, situações da banda durante a tour, etc… Foi um trabalho que exigiu o uso da minha visão para captar esta essência que eles queriam. Acabou também por ser um video mesmo do coração, que reflecte até muito bem o meu espírito durante esses dias de convívio com eles. O público em geral e fãs acabaram por aceitar também com grande entusiasmo o video.

6 – Como vês o actual estado da cultura em Portugal? A nível de design e multimédia qual é o ponto da situação relativamente a exemplos estrangeiros?

Muito Mau. Somos uma tentativa de uma cópia mal americanizada.
Existem poucos estúdios de design em Portugal que realmente fazem design e tentam levar a coisa para a frente ( quero como exemplo referir os meus amigos ALVA e a Umbrella ), o resto é tudo abafado por meia dúzia de agências com a “formula institucional”, a criar as imagens mais super aborrecidas possíveis. Já viram a publicidade actual que passa na televisão? Já eram os tempos em que a publicidade tinha piada, era arriscada e ousada, onde ainda existia alguma dignidade e respeito ao aspecto Artístico que a publicidade deve ter. Hoje em dia a publicidade portuguesa é, mais do que nunca, passar atestados de estupidez. Tinha um professor na Universidade que admitia que as séries e alguns filmes portugueses eram realizados e escritos por algo que se estimava em média de “alguém com inteligência não superior a uma pessoa com 14 anos”… Não quero meter todas as pessoas no mesmo saco, e quero respeitar a todos aqueles que saem da rotina da moda e Criam coisas novas no nosso pais… mas 90 % dos consumidores de arte ou cultura, e também 90 % dos criadores de arte, estão completamente viciados e já programados por modas ( que quando chegam cá já nem são moda no seu local de origem ). Outro ponto que me entristece é o cinema… Até podemos ter um bom filme português a sair por ano, mas não vamos ter conhecimento desse filme… Isto é uma boa metáfora do estado da nossa cultura.
Olhamos relativamente para o nosso lado, na França fazem filmes lindíssimos, que seriam bem possíveis em termos de custos de produção serem feitos em Portugal! Mas não fazemos… ou não somos apoiados.

7 – O que farias para impulsionar essa mesma cultura no nosso país?

Faria a população no geral crescer mentalmente.

8 – Desenvolves vários trabalhos dentro da ilustração. Qual é para ti o maior desafio de trabalhar neste ramo em Portugal?

Ilustração considero ser um hobbie/prazer que eu tenho… tudo o que fiz de ilustração que deu dinheiro foram peças vendidas para fora de Portugal. A ideia que tenho é que quem é bom ilustrador vai para o estrangeiro seguir carreira. Em Portugal acabas por não conseguir apenas viver da ilustração, existem muitos casos de ilustradores excelentes mas que são também designers, ou tatuadores, ou trabalham noutra coisa qualquer não relacionada para se poderem sustentar.

9- Apesar de serem artes diferentes, entre ilustração ou realização o que preferes e porquê?

Apenas poder exclusivamente fazer realização é o meu objectivo. Não sei explicar… é onde quero estar.

10 – Além de trabalhares em vários projectos musicais, nomeadamente no desenvolvimento de t-shirts ou videoclips, também elaboraste um projecto para a Galp e o video da Chungaria, as festas no Lux. O universo da publicidade é algo que também te fascina?

Fascina-me, mas como expliquei em cima actualmente é um sitio onde se vive alguma frustração entre as pessoas… Não conheço NINGUEM neste meio que não tenha descontentamento com o que acaba por ser “impingido” no processo do trabalho…

11 – Que conselho darias aos jovens artistas portugueses que vão agora iniciar-se no mundo da ilustração ou dos audiovisuais?

Cliché mesmo: Que sigam e agarrem com unhas e dentes o que gostam mesmo de fazer, desenvolvam isso diariamente sem desmotivar porque é a unica forma de o fazerem bem.

Entrevista por João Miguel Fernandes

Para conhecerem mais do trabalho de John Filipe visitem:
http://cargocollective.com/john

3 responses to “Entrevista a John Filipe

  1. João, Parabéns por mais uma belíssima entrevista. :)

    É de pessoas assim, como o John, que nos fazem falta. Alguém para quem o óbvio não passará por ser a resposta e indo mais além.

    Bom trabalho,

    Abraço

    • Obrigado pelo apoio e pelas palavras José. Há tanta gente talentosa como o John em muitas outras áreas e a maior parte das pessoas nem sonha… Um dos meus objectivos é dar a conhecer o que tem muito valor, e as cenas dele têm mesmo muito.

      abraço,
      João

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