The National + Dark Dark Dark no Campo Pequeno (24/05/2011)

É possível que nunca chegue a compreender o que faz duma banda como The National um fenómeno de culto, é mesmo muito provável que nunca venha a entender o que leva apenas um pequeno nicho do público a uma adoração mais fervorosa da banda de Ohio.
Talvez a entrega em palco que demonstram tenha convencido o grupo selecto daqueles que estavam na plateia  de cada vez que passaram em terras lusas, talvez achar os The National o nosso segredo bem guardado que só nós e um punhado de amigos conhece tenha contribuído para esse estatuto de banda de culto.

A verdade é que depois de ontem, talvez por culpa do excelente “High Violet”, pôs-se a nu uma realidade que extravasa o mero culto mas que nunca poderá ser tida como “mainstream”. Pensem num fenómeno típico de um filme de Tarantino. Faz todo o sentido identificá-lo com uma certa subcultura de nichos mas a verdade é que chega a uma audiência  muito mais abrangente, mantendo a tal admiração fervorosa a que os The National não fazem por defraudar. Momentos acústicos intimistas, temas retirados do baú dedicados ao público Português, perfeita comunhão com a plateia, que resultou em várias vindas a público de Matt Berninger que de cada vez que o fez se perdeu da vista daqueles que estavam mais afastados, e mil e um “Obrigados”.

Comecemos pelo princípio. São precisamente 21.00 quando surgem em palco os Dark Dark Dark, o Campo Pequeno está longe de estar cheio e a atenção, para já, não está dirigida aos músicos agora em palco. Não estão mais que 45 minutos em palco mas é notória, tema após tema, a capacidade de cativar os presentes que vão chegando ao recinto do Campo Pequeno que rapidamente se rendem às vozes frágeis dos vocalistas acompanhadas por uma “ensemble” de instrumentos folclóricos como o banjo e o acordeão a que se juntam o clarinete e o piano que criam um ambiente comovedor  que não deixa ninguém indiferente.

Bem mais que competente é o que se pode dizer da primeira parte a cargo dos Dark Dark Dark  que aproveitaram para elogiar o nosso país e os The National, que haveriam de retribuir.

Pequena pausa para agonias e meia-hora depois entravam em palco os The National recebidos por intensas palmas. Um pequeno “Obrigado” e lançam-se sobre o disco anterior Boxer com “Start a War”. O aviso estava feito e a julgar pelas vocalizações aguerridas de Berninger ao longo do concerto era para levar a sério.

O primeiro piscar de olhos a “High Violet” , albúm editado o ano passado, surge prontamente com “Anyone’s Ghost” que logo convenceu o público a entoar o refrão.

“Secret Meeting” foi o primeiro regresso a “Alligator”, e terminou com o desvario completo de Berninger a dar tudo o que a sua voz tinha e não tinha. O aviso era mesmo sério.

O primeiro grande momento chegaria com “Slow How”, impulsionada por “Blood Buzz Ohio” que acabara de ser tocada, já não havia por esta altura quem não estivesse a bater palmas e é seguro assumir que o Campo Pequeno se tinha rendido ali e já não havia volta a dar.

Agradecem-se as palmas, novamente em Português, e a bateria assalta o ritmo de “Squalor Victoria”. Há um pouco de exibicionismo, mas só o suficiente para sabermos que Bryan Devendorf não deixa créditos por mãos alheias. Mais uma vez Matt lançasse sobre um exercício vocal que não pode ser nada bom para a saúde e que poria em vergonha alguns vocalistas emo-core .

“Afraid Of Everyone” chega e acalma os ânimos, há que saber dosear o entusiasmo e surge como oportunidade do público poder acompanhar nas vozes – pelo menos todos aqueles que não se sentiam entediados, que em boa verdade, seriam um ou outro gato pingado indiscernível numa multidão adoradora – e preparava o ambiente propicio para que se tocasse “Little Faith”.

“Here’s a super angry song” ,não fosse alguém achar que a melancolia ia durar mais tempo, e voltam os National a convidar a um pezinho de dança e ao incansável, provavelmente já numa atitude “ um dia não são dias”,  arranhar de voz  de Matt Berninger que por entre um e outro copo lá ia consolando as cordas vocais. Ninguém se queixava, mais era o que se pedia e o público já não estava quieto. Mas não, era tempo de voltar a sossegar o batimento cardíaco com “All The Wine” e “Sorrow”, outro momento assinável do concerto. O público a mostrar saber de cor os versos de um dos melhores momentos líricos do reportório dos The National e as palmas estão lá desde os primeiros toques de bateria.

Surge “Apartment Story”, cujo os arranjos ao vivo levaram a um final em absoluta apoteose, em cima do palco e não só. Seria o melhor momento do concerto por esta altura, pelo menos até chegar “Terrible Love”.“Conversation16”seguiu-se e conseguiu a difícil tarefa de manter a fasquia que havia sido elevada.

As ovações haviam atingido um ponto ensurdecedor e cada simples agradecimento era recebido euforicamente pelos presentes. Provavelmente terá sido uma boa ideia introduzir “Lucky You” na setlist por esta altura, admitida pelos próprios National como o seu tema mais triste, ainda que não tenham chegado a consenso se é ou não esperançosa. Elogios não faltaram quando se dirigiram ao público, fosse ao país ou ao recinto que os recebia, por onde, contou Aaron Dessner , os National se passearam durante o dia a tirar fotos. No final pergunta-se “ Super buzz kill, right?”,  Matt Berninger a desculpar-se quando ninguém parecia realmente importado com o registo em que tocavam os The National. A menos que fosse por causa dos cisnes que surgiam no ecrã, eram realmente entediantes.

“England” e “Fake Empire” dariam o mote à primeira saída de palco. “Fake Empire” fortemente aplaudida e cantada em coro com todo o Campo Pequeno justifica que se saia de palco para que se saiba o quanto o publico quer ouvir mais da banda.

Felizmente a espera não foi muita – os cânticos de Olé já tinham começado e isso é apenas chato de se ouvir num concerto, mesmo que seja numa praça de touros-  e o regresso a palco trazia uma surpresa e uma dedicação a Portugal.

Retirada do baú “Friend Of Mine”, explicaram, era uma das canções que sempre que vinham a Portugal lhes pediam para tocar e pela segunda vez em toda a sua carreira os The National assentiram ao pedido e interpretaram-na ao vivo. “ We almost got it”, falharam aparentemente por um micro-tom.

Prometeram que a próxima sabiam tocar e arrancaram com “Mr November” seguida de “Terrible Love” uma combinação fisicamente fatigante mas que em palco não parecia fazer mossa. Matt voltaria a vir ter com publico e por momentos a desaparecer de vista num mar de gente. O melhor momento do concerto sem qualquer espaço para dúvidas que dá por concluído o primeiro encore.

De volta ao palco o fim parecia iminente e foi na maior das melancolias que os The National se despediram de Lisboa. “About Today” foi o início de uma despedida em franca nota positiva e no público já havia quem começasse a gritar por mais uma não fosse o concerto acabar ali. A verdade é que, para aqueles de nós que não estavam perto do palco, este teria sido o momento perfeito para nos despedirmos mas em palco surgiam guitarra acústicas e fez-se um pedido de silêncio para que se tocasse sem microfones “Vanderlyle Crybaby Geeks”. A julgar pelo entusiasmo com que se cantava junto ao palco o momento parece ter sido inesquecível e sentimental, mas mais de metade do Campo Pequeno só ouvia o público cantar -as guitarras era vê-las – e quando Matt voltou a ir ter com o público já nem isso se ouvia.

É meia-noite e o concerto termina, chovem agradecimentos dum lado e ovações do outro, ninguém saiu do Campo Pequeno insatisfeito, fossem eles os jovens junto do palco ou os não tão jovens na bancada. É notório que os The National vão criando um grupo de seguidores cada vez mais vasto e heterogéneos unidos pela mesma devoção à banda. É bom ver que estão longe do perigo de algum dia virem a ser apelidados de mainstream independentemente da quantidade de fãs que venham a ter.

Setlist:

Start a War
Anyone’s Ghost
Secret Meeting
Bloodbuzz Ohio
Slow Show
Squalor Victoria
Afraid Of Everyone
Little Faith
Abel
All The Wine
Sorrow
Apartment Story
Conversation 16
Lucky You
England
Fake Empire

Friend of Mine
Mr. November
Terrible Love

About Today
Vanderlyle Crybaby Geek

Este slideshow necessita de JavaScript.

Texto por Jorge Almeida
Fotos por Hugo Rodrigues

Deixar uma resposta