Bráulio Amado – Entrevista

Bráulio Amado é um jovem criativo que vive e trabalha em Nova Iorque. Designer e músico, Bráulio junta o melhor das duas artes. Conhecido por fazer o artwork de bandas como Lobster ou Linda Martini, por fazer parte dos Adorno e dos No Good Reason, e por ser um Designer incrível, Bráulio Amado enche-nos de conhecimento com as suas respostas. Uma grande entrevista para ler e divulgar.

1 – De onde surgiu o teu interesse pela ilustração? Foi algo que te acompanhou desde sempre?
Cresci rodeado por pessoas na família que pintavam e desenhavam, portanto as primeiras experiências surgiram quando era bem novo. Mas o computador e photoshop acabaram por substituir o lápis e só quando entrei na faculdade e descobri o pincel chinês é que comecei a dedicar-me mais ao desenho e à ilustração e a interessar-me pelas artes.

2 – Em quem te inspiras para os teus trabalhos? Quais são as tuas referências a nível nacional e internacional?
Hoje em dia sou bombardeado com tanta informação que começa a ser difícil decifrar o que mais me inspira ou influencia o meu trabalho. Talvez um misto de street art com a estética do punk-hardcore e uma série de blogs que debitam centenas de imagens diariamente no meu reader. As minhas referências a nível nacional passam pelo Sebastião Rodrigues e alguns nomes mais actuais como os Alva. Internacionais, Chris Ware, Chip Kidd, Hort, James Victore, entre muitos outros.

3 – Como vês a cidade de Almada nas artes actualmente? É uma cidade que permite que os jovens possam evoluir nessa área?
A cidade de Almada sempre teve uma cena bastante forte de graffiti, mas sinceramente penso que o desenvolvimento e divulgação das outras artes seja muito pequeno. Maior parte dos jovens artistas estudam em Lisboa e penso que acaba por ser lá onde todos os que vivem na margem sul se tornam mais activos, exploram e são explorados.

4 – Saltaste de um meio pequeno (Almada) para um gigante (Nova Iorque). Quais foram as principais diferenças que sentiste, tanto a nível de adaptação como a nível de ensino?
As diferenças são obviamente vertiginosas mas ,apesar de tudo, grande parte da nossa cultura e vivência é influenciada pelo que se faz na América e estamos tão habituados aos cenários nos filmes e à língua que o choque não é assim tao grande. É impossível comparar NYC a Almada, não por ser melhor ou pior, mas por numa cidade eu ter uma série de laços e amizades edificadas durante anos e noutra por sentir que há um mundo todo novo para explorar e uma coisa sem a outra é o suficiente para abanar a tua cabeça aos 20 e tal anos. Eu apenas estudei 5 meses cá, depois voltei para estagiar e agora vim para trabalhar full-time. Tive bastante sorte em fazer o intercâmbio numa escola em que os professores eram designers de quem eu já conhecia o seu trabalho e onde alguns eram/são uma espécie de lendas dentro da área (como o Ed Benguiat e James Victore) o que infelizmente não acontece em Portugal, maior parte das pessoas que leccionam por vezes já nem activas estão dentro da profissão. Com a internet hoje em dia temos acesso a toda a técnica e informação visual, as aulas de design deviam-se focar mais em trabalhar e explorar conceitos e estilos em vez de aprender a dominar o photoshop ou outro programa qualquer, essa foi a maior diferença a nível de educação que senti aqui.

5 – O que nos podes dizer sobre Nova Iorque? É realmente a terra das oportunidades, ou há algo mais por trás?
Acaba por ser meio cliché, mas ao mesmo tempo é verdade. NYC tem uma indústria criativa gigante e há espaço para toda a gente que se esforça naquilo que gosta de fazer. Todas as leis de emigração dificultam bastante pessoal europeu a mudar-se para cá mas é possível, basta tentar contornar a coisa.

6 – Colaboraste com várias empresas e estás ligado ao artwork de várias bandas. Como tem sido para ti gerir tantos projectos ao longo destes últimos anos?
Maior parte dos artworks de discos que faço acabam por ser para bandas de amigos e toda a gestão é muito mais fácil. Mas há sempre a necessidade de me sentir activo naquilo que me dá gozo fazer, seja design, ilustração ou música, e por vezes vejo-me enfiado em demasiados projectos ao mesmo tempo, acabando por ser cansativo e difícil. Mas tem sido uma constante nestes últimos anos de maneira que me vim a habituar a este ritmo e já não sei como abrandar.

7 - Como vês actualmente o design/ilustração em Portugal? Estamos muito atrasados para o que se faz em Nova Iorque ou no resto da Europa?
O estar atrasado é relativo. O design/ilustração quer-se como algo novo e essa ideia é algo em constante mutação, de maneira que não faz sentido comparar o tempo que demora uma certa trend até chegar à europa com o que pode ser logo original de origem. Temos em Portugal uma série de pessoas bastante boas que merecem reconhecimento e oportunidades mas infelizmente por vezes têm que esperar que alguém lá fora faça algo semelhante para pedir aos portugueses “algo parecido”.

8 – Estás também ligado à música enquanto músico. Fala-nos um pouco do teu projecto “Adorno”, juntamente com outros grandes músicos portugueses. Quais são as ambições para o futuro?
Adorno é acima de tudo 5 amigos que vêm a banda como uma oportunidade de fazer música, divertirem-se e viajar segundo toda a ética do “do it yourself”, portanto as ambições não estão dependentes das nossas localizações geográficas. O Ricardo (baterista) mudou-se para Barcelona e agora comigo em NY vamos mantendo a banda via internet. Vão continuar a haver lançamentos, tours mas menos concertos em Lisboa e um certo delay naquilo que poderia acontecer se estivéssemos todos na mesma cidade.

9 – Fala-nos de um momento da tua juventude que te tenha marcado significativamente.
Acho que a primeira vez que decidi viajar sozinho e passar 2 semanas em couchsurfing e sofás de amigos que fui conhecendo em tour foi dos melhores momentos de sempre. A sensação de chegar a um país e sentir que estás totalmente por tua conta é brutal. Mas a primeira vez que Adorno foi em tour pela europa foi também um marco bastante importante, não só pela aventura em si, mas por sentirmos que estávamos em comando daquilo que queríamos fazer com a banda.

10 – O que é que achas que devia mudar em Portugal, a nível cultural e artístico?
Há uma série de gente a fazer coisas de uma maneira inteligente, mas por vezes há pouca gente interessada em apoiar o que se faz e fazer com que haja um seguimento e uma plataforma para que pessoal mais novo consiga ser criativo sem desistir. Acho que nos últimos dois anos melhorou significativamente, mas talvez não chegue. Há demasiados espaços abandonados no centro de Lisboa que poderiam ser usados e ocupados com actividades culturais, mas há também demasiados interesses pela parte da câmara ou dos proprietários que infelizmente eliminam qualquer potencial. Há também a eterna questão da exploração no trabalho, os recibos verdes, os estágios curriculares… tudo isso é  ridículo e passivo, mas acaba por definir tão bem a nossa geração.

11 – Com uma idade tão jovem e um caminho tão bem sucedido, quais são as tuas expectativas para o futuro?
É um sentimento estranho, eu vim para NYC para trabalhar num estúdio que há uns anos atrás era algo que parecia inatingível. Neste momento só quero mesmo aprender o máximo possível e continuar a fazer o que tenho feito até hoje. Ainda me sinto bastante novo e só agora é que me sinto a conquistar alguma independente na minha vida profissional e pessoal. É continuar!

12 – Que conselho deixarias aos jovens que querem ser designers e ilustradores? Passar para o estrangeiro é uma boa hipótese?
Façam as cenas por vocês próprios. Aprende-se bastante com novas culturas, especialmente com as mais diferentes da que estamos.


Para verem mais do trabalho deste grande artista:

http://www.iusecomicsans.com/

Entrevista por João Miguel Fernandes

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