Amplifest – Primeiro dia (29/11/2011)

Dia 1:

Escrevo ainda bastante atordoada da chapada musical que foram estas 48 horas. Eu prefiro escrever assim, enquanto as emoções ainda não assentaram e enquanto escrevo mais com o coração que com a cabeça. Gosto desta sensação de tentar verbalizar aquela que foi, muito provavelmente, a melhor experiência do ano. Uma coisa é certa, neste momento a Amplificasom merecia uma vénia. Daquelas com toda a pompa e circunstância pelo exemplo de organização que deram. Para primeira edição do concerto, não poderíamos ter pedido melhor. Os concertos começaram a horas e viveu-se um excelente ambiente de convívio e amizade, aliado a um cartaz como nunca pensámos ver por cá. Experienciámos um Hard Club cheio de vida, entre concertos e bancas de CDs e merchandising dignas desse nome. E é por fins de semana assim que continua a valer a pena sair de casa.

A festa começou na sala 1 com os nossos EAK. A eles coube a importante responsabilidade de abrir esta primeira edição de um Amplifest por esta altura ainda pouco composto. Mas nem isso foi impedimento para nos darem aquilo a que já nos habituaram: mais um bom concerto onde tivemos oportunidade de ouvir algumas músicas do Muzeak que é facilmente um dos melhores lançamentos do ano no panorama nacional.

Ainda os EAK estavam a terminar e na Sala ao lado começava a tocar Suzuki Junzo, guitarrista experimental, pela primeira vez a tocar no nosso país, e que confidenciou ao seu público que esperava que estivéssemos a gostar tanto de o ouvir como ele estava a gostar da cidade do Porto. Num estilo muito seu, não comprometeu na sua actuação relativamente curta, e que antecedeu o visionamento de Blood Sweat + Vinyl na mesma sala. O documentário retrata a luta de três editoras (Hydrahead, Neurot, and Constellation) e das suas bandas, cada uma melhor que a outra. Ainda pudemos ter o gosto de ouvir Neurosis, Pelican ou os saudosos Isis.

Uma das grandes surpresas do dia estaria para chegar agora. De volta à Sala 1, encontrámos o power trio espanhol Cuzo, ainda pouco conhecido entre nós, a iniciar a sua actuação. A energia que saía do palco proveniente de uma boa mistura de momentos progressivos e psicadélicos, rapidamente contagiou grande parte dos presentes na sala que não arredaram pé até ao final. Marcaram pontos e ganharam uma boa quantidade de fãs.

Findo o concerto, ainda conseguimos apanhar a recta final do Blood Sweat + Vinyl para nos prepararmos para o que havia de vir a seguir. A confirmação de Sungrazer foi uma das mais aplaudidas do cartaz, por isso não foi de admirar que encontrássemos uma Sala 1 já bastante mais bem composta para os receber. Podemos dizer que não desiludiram, fomos ao deserto, voltámos e ainda nos soube a pouco. As comparações com Kyuss acabam podem ser algo fácil de apontar, mas mesmo assim os Holandeses conseguem criar o seu espaço e identidade próprios. Só nos faltou ouvir a Wild Goose.

Entretanto, na Sala 2 subiam ao palco os Stearica e acho que aqui a opinião é unânime. Veni, Vidi, Vici. Foi impossível ficar indiferente à atitude e ao som destes senhores que deram um daqueles concertos “para mais tarde recordar”, com toda a certeza um dos grandes deste Amplifest. Ainda um pouco “perdidos” em relação ao nosso país, pediram-nos algumas sugestões gastronómicas para gozar o resto da estadia.

Outro dos concertos mais esperados estava prestes a começar. Rorcal & Solar Flare foram subindo ao palco aos poucos, reflexo daquilo que foi o crescendo de intensidade que este concerto representou. Ainda é difícil passar para palavras aquilo que se passou naqueles 45 minutos, mas o ambiente na sala ficou pesado. Pesado e envolvente de uma maneira que não se voltou a sentir até ao final do festival, reflexo dos riffs avassaladores que a banda foi deitando durante a sua actuação. E com a fasquia tão alta, o concerto de Mugstar na sala ao lado acabou por passar um pouco ao lado do esperado. Não foi um mau concerto, mas ficou a sensação de ter faltado algo mais.

Lufada de ar fresco para uns, hora de jantar para outros. Estava na hora de fugirmos um bocadinho ao psicadelismo que estava inevitavelmente a caracterizar o dia de concertos. Os embaixadores do hardcore belga, Rise and Fall subiam ao palco para aquele que foi um bom concerto, com direito a sing-a-long, como se quer. A setlist, que percorreu grande parte da discografia da banda, contou com temas como The Noose e Into Oblivion e ainda levantou o véu sobre o próximo album, Faith, com lançamento previsto para 2012. Um dos momentos altos da actuação acabou por ser com In Circles, a última, em que a banda chamou o público para junto do palco. Despediram-se de seguida, ficando num ar um “see you again next year”. Cá vos esperamos.

Corremos para a sala ao lado porque não queremos perder o início de OvO, que podiam facilmente levar para casa o prémio de concerto mais bizarro do festival, o que, atenção, não é necessariamente mau. A dupla apresenta-se em palco, ele com pinta de carrasco, ela em trajes reduzidos e máscara de malha. O que se passou a seguir não foi para qualquer um, foi pura esquizofrenia. Mas se a princípio se estranha, o que é certo é que ficamos facilmente presos ali, em toda aquela aura criada, e sem força para sair. Apesar de tudo, também é verdade que, a partir de certa altura, a loucura dava lugar a uma certa monotonia por não haver mais nada de novo para mostrar (ou se calhar nós é que aguardávamos para ver que mais se iria passar). Únicos, entraram na recta final da sua actuação com Bruno Dorella a encarnar a sua personagem na perfeição junto do público.

Também o dia se aproximava do final, mas não sem antes assistirmos ao motivo que levou a maioria do público a deslocar-se ao Hard Club: Justin Broadrick, uma verdadeira lenda, que se apresentou no festival como cabeça de cartaz, em dose dupla. Sábado foi a vez de subir ao palco como Jesu. Concerto mediano, por muito que custe admitir. Fica a sensação que a música criada resulta muito melhor em gravação do que quando tocada ao vivo pois faltou sempre qualquer coisa para criar toda aquela envolvência que os álbuns nos trazem, algo que nem com músicas tão imponentes como Conqueror ou Silver conseguiram atingir. A qualidade do som também pareceu querer falhar aqui, foram raras as vezes em que se conseguiu ouvir a voz do Broadrick com clareza. Talvez as coisas tivessem sido diferentes se houvesse um baterista em vez de gravações no mac. Foi bom tê-los ali perto de nós, algo que muitos achámos que nunca ia acontecer. Tele transportamos assim as nossas expectativas para o concerto de Godflesh, que haveria de encerrar o dia seguinte (e que podemos dizer desde já que roçou a perfeição).

O encerramento da noite, em forma de after party, coube ao insano projecto de Aaron Spectre, Drumcorps. Apesar do cansaço de alguns já ser evidente e terem-se registado alguns desistentes poucos minutos depois do concerto ter começado, ainda foram alguns os resistentes que ficaram a assistir, completamente perdidos num bar de electro-dubstep-grindcore-hardcore e tudo o que lhe passasse pela cabeça e parecesse bem. O resultado final talvez não seja para os ouvidos de toda a gente, mas de certeza que nenhum dos presentes, ao virar costas, o fez como se nada fosse.

Abandonámos assim o Hard Club, com a sensação de dever cumprido. Foi um bom dia, com bons concertos, boas surpresas. Mas o cansaço fala mais alto e ainda nos esperava mais um longo dia de concertos e que prometia ser ainda melhor.

Este slideshow necessita de JavaScript.

Texto por Cláudia Filipe
Fotos por Cláudia Andrade

Deixar uma resposta

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Modificar )

Imagem do Twitter

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Modificar )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Modificar )

Connecting to %s

Seguir

Get every new post delivered to your Inbox.

Junte-se a 217 outros seguidores