Amplifest – Segundo Dia (30/10/2011)

Os concertos no domingo começaram mais cedo, numa tarde em que se revelou particularmente difícil chegar ao Hard Club, com o caos que se instalou na circulação na baixa do Porto. Felizmente entrámos a tempo do início da actuação dos L’Enfance Rouge, a quem coube a tarefa de inaugurar este segundo round de festival, que se esperava tão ou mais poderoso que o dia anterior. E de facto as nossas expectativas não saíram defraudadas. Como seria isso possível quando tivemos o prazer de assistir a magistrais concertos dados por Godflesh, Bardo Pond, Orthodox ou os nossos Process of Guilt.

Voltando aos franco-italianos do avant-rock, têm sempre uma responsabilidade acrescida sobre os ombros, já que tiveram a honra de ser considerados uma das melhores bandas da Europa por Mike Patton e Thurston Moore. Mas não se podia ter pedido melhor para começar a tarde. Com o mais recente lançamento Bar-Bari como mote, deram um bom concerto, em que por mais que uma vez sentimos as marcadas influências de Sonic Youth nas suas composições. Mas cumpriram a sua missão de segurar a já composta audiência que os estava a ver. Afinal sempre vale a pena ir mais cedo.

Enquanto os L’Enfance Rouge tocavam, na sala 2 estava a ser exibido o Soldier of the Fortune, documentário sobre o saxofonista Peter Brötzmann, um dos grandes nomes do free jazz. Pudemos conhecer um pouco do seu percurso e assistir a sensacionais performances ao vivo, daquelas em que só nos ocorre um “quem me dera ter estado lá.”

Quando regressámos à Sala 1, encontrámos uns poderosos Enablers a destilar energia. O carismático frontman, Pete Simonelli, leva-nos numa viagem poética ao centro das suas emoções, de fazer inveja ao próprio Nick Cave. Revelam-nos que este é o quadragésimo segundo concerto em quarenta e dois dias, feito inacreditável se pensarmos na entrega que deram a este concerto. Despedem-se deixando no ar um “see you again next year”.

Hora de bom rock, à antiga e no feminino. Os Witchburn subiam ao palco liderados pelo vozeirão de Jamie Nova e os riffs poderosos de Mischa Kianne. Electrizante é a palavra que melhor caracteriza esta actuação de um grupo que se diz influenciado por “cowboys, histórias de fantasmas e Pantera”. Com mais rodagem terão tudo para ser um dos nomes a ter em atenção para os próximos tempos.

Por falar em grandes senhoras… a enigmática Isobel Sollenberger deixou-nos completamente rendidos. Com ou sem aditivos, guiou os Bardo Pond naquele que foi um dos pontos altos deste festival, no meio de um psicadelismo ora caótico, ora desorganizado, mas sempre com qualquer coisa que nos bateu cá dentro. E depois de vinte anos de carreira e primeira oportunidade para os ver no nosso país, soube bem ouvir finalmente temas como Tommy Gun Angel.

Foi difícil querer sair de Bardo Pond para assistir ao início de Dirge, por isso quando chegámos à Sala 2 já a actuação dos franceses ia lançada. No entanto, não pudemos deixar de destacar a simbiose criada entre boas peças de sludge e as projecções que as acompanhavam, que ajudaram a elevar a actuação e a distingui-la pela diferença.

E a partir de agora começa uma sequência de deixar qualquer um de rastos. A representar as cores portuguesas estiveram os Process of Guilt, que foram Enormes e provaram mais uma vez porque é que são uma das incontornáveis bandas nacionais e não estão atrás do que se faz lá fora. Conseguiram ter o dom de nos envolver num crescendo de intensidade e sufoco que culminou com a apresentação de uma música nova. Tem sido notória a evolução da sonoridade destes senhores, que a cada gravação que passa caminham para um doom mais pesado e intenso e este concerto levantou o véu sobre o que poderemos esperar deles no próximo ano.

Barn Owl foram a banda que mais gente levou à sala 2. A dupla americana transportou-nos durante uma hora para o seu universo, onde entrámos e nos libertámos de tudo o que nos rodeava, perdendo completamente a noção do tempo e do espaço. Foi um momento bonito, do qual acordámos ainda atordoados. De louvar as cadeiras montadas, peça fundamental para que esta experiência fosse mais intensamente vivida.

Os Acid Mothers Temple já andam nisto há muitos anos e têm uma vasta colecção de álbuns editados. Como se isso importasse para alguma coisa porque durante aquela insana hora tivemos direito a ouvir reinvenções, improvisos e muitas divagações contagiantes, hipnóticas por vezes. Para muitos foi o concerto do festival, tal foi a entrega imposta Japoneses.

Não é a primeira vez que os Orthodox vêm a Portugal, mas a verdade é que não conseguem parar de nos surpreender. Nunca sabemos muito bem o que esperar de uma actuação deles, dado que é uma banda que tem uma capacidade de mutação rápida. Para o Amplifest, decidiram deixar a veia mais jazzística de lado e dar uma chapada do demónio ao público que por lá se encontrava. Como alguém por perto dizia, “quando a Igreja do Mal der missas, põe lá estes senhores” e nós acrescentamos que tem de ser ao vivo, porque em gravação nem parece a mesma coisa. É indescritível o ambiente sombrio que os Espanhóis são capazes de criar, seja pela peculiar voz do vocalista, seja pelo poder que sai daquelas guitarras e que tão depressa preenche uma sala.

Desta forma brilhante, encerraram-se as festividades na sala 2. Hora de ver, mais uma vez, Justin Broadrick, desta vez sob a forma de Godflesh. Sobe ao palco com G. C. Green e por momentos teme-se que estejamos perante uma repetição do pequeno balde de água fria que foi a noite anterior. A verdade é que aconteceu o inverso e de certeza que este foi um dos melhores concertos que muito boa gente já viu. Bastaram os primeiros acordes da Like Rats para perceber que ali se estava a fazer história. Godflesh, mentores de Streetcleaner, são um marco incontornável para qualquer pessoa adepta destas sonoridades e podemos dizer que são os pais de bandas como Isis e provavelmente muitos de nós nunca imaginámos que iríamos conseguir viver isto um dia. Naquele que decidimos eleger como o melhor concerto do festival, pudemos ouvir temas como Spite ou Avalance Master Song. Épico.

Não queremos encerrar sem voltar a enaltecer o espírito que a Amplificasom revelou. Exemplo de organização e coragem, decidiram arriscar num cartaz diferente (num Roadburn à Portuguesa, como foi tantas vezes apelidado). Aguardamos ansiosamente pela edição do próximo ano.


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Texto por Cláudia Filipe
Fotos por Cláudia Andrade

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