Ulver no MusicBox (19/11/2011)

Ulver, os camaleónicos lobos norugueses, pisaram palcos lisboetas pela primeira vez. A expectativa era enorme sobretudo após os relatos que chegavam trazidos por ventos nortenhos, fruto do concerto por lá dado o ano passado na Casa da Música. Desta feita, vieram-nos visitar com o propósito de apresentar War of the Roses, lançado em Abril deste ano.

A banda, que começou a sua carreira com sonoridades ligadas ao Black Metal tem vindo a sofrer mutações ao longo do tempo, tendo atingido a maturidade em sons claramente experimentais e ambientais. Os últimos álbuns e as aclamadas críticas recebidas têm sido provas da mestria com que estes senhores o fazem. Por esta razão, os Ulver mereciam ter sido recebidos por uma casa muito mais composta do que a que realmente estava para uma actuação que se esperava magistral.

February MMX,  estandarte do War of the Roses, deu início a uma verdadeira viagem de quase uma hora e meia e, rapidamente percebemos porque é que este álbum foi idealizado para ser tocado ao vivo. A intensidade que temas como England (que, como nos dizia Kristoffer Rigg, é uma música que vem da Noruega, mas que fala sobre Inglaterra), Island ou September IV alcançam, é algo que só se explica vivendo esta experiência. Para atingir a catarse tivemos ainda a ajuda de frenéticas projecções que acompanharam cada segundo, cada improviso, cada divagação e improvisação, que nos provaram o porquê dos Ulver serem tão grandes e um marco incontornável dentro do seu género. O MusicBox, que até então levantava dúvidas se seria o espaço ideal para receber esta banda dado o caos de espaço que se instalou em palco, acabou por criar o ambiente ideal devido à sua capacidade de criar ambientes intimistas. O som em muito ajudou a tornar esta noite tão especial. A cumplicidade entre os músicos também é evidente, especialmente entre Kristoffer Rigg e a mais recente “aquisição” dos lobos, Daniel O’Sullivan, um autêntico animal em palco. O multi-instrumentista de currículo invejável (colaborou com nomes como Sunn 0))) ou Jarboe) acabou por ser parte fundamental na criação de War of the Roses.

A apoteose seria então atingida com a música que marcou o final da primeira parte: Darling Didn’t We Kill You? numa versão rasgada e arrebatadora. Seguiria-se o encore, tão denunciado devido ao não-abandono do palco por parte do baterista e de um dos programadores, incapazes de se mover, tal era a parafernália de instrumentos, que contou com temas como For the Love of God e uma cover de The Troggs, 654321 (I Know What You Want). Os Ulver já haviam anunciado o lançamento de um álbum de covers de música psicadélica da década de 60 que acabou por ficar na gaveta, podendo muito bem esta versão ser o levantar do véu sobre o dito acontecimento. E assim deixariam o palco mais uma vez, acompanhados pelo ressoar de palmas que iam perdendo intensidade, mas que com a insistência dos mais teimosos ainda nos trariam uma cereja no topo do bolo, na forma de EOS, directa do Shadows of the Sun.

Foi com certeza uma noite incapaz de deixar indiferente quem quer que estivesse a assistir àquele espectáculo. O preço do bilhete poderia não ser o mais convidativo e terá sido este um dos principais factores para explicar a ausência de mais público, mas a hipnose a que estivemos sujeitos não tem valor.

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Texto por Cláudia Filipe
Fotos por Hugo Rodrigues

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