Orfeu, da Companhia Montalvo-Hervieu, Culturgest

Até ao dia de hoje inclusive, a Culturgest apresenta Orfeu, um espectáculo de dança/performance, de José Montalvo e Dominique Hervieu.

Eurídice, sete da manhã
Vejo-a ao longe, a entrar para a estação
do metropolitano: mala Gucci, casaco de
peles, mini-saia. Na mão, ainda um copo
de plástico com beatas e rodelas de laranja.
Orfeu espera em Sete-Rios, duas pastilhas de
ecstasy no bolso, aflito com a ideia de que
não pode olhar para trás como da última vez.
José Mário Silva

Inicio este artigo com um poema da autoria de José Mário Silva e o/a leitor/a perguntará porquê. Terei de desviar o percurso até ir ao encontro de Orfeu. A ideia de cruzar figuras/ideias improváveis, o clássico com o contemporâneo, o absurdo com o óbvio, e tantas outras dicotomias que se possam imaginar, sempre me agradou de alguma maneira. José Montalvo e Dominique Hervieu fazem-no com sabedoria, apresentando-nos encontros inesperados. Parece-me que, nesse sentido, o poema vai ao encontro da ideia deste espectáculo. Mais do que a materialização da leitura de um mito numa performance que une a dança com o vídeo e o canto, este é um espectáculo que oferece ao espectador uma adaptação daquilo que se pode extrair do mito de Orfeu, aos olhos do mundo de hoje; porque todas as leituras clássicas nunca deixam de ser actuais e continuam a disponibilizar-nos inúmeras reflexões para aquilo que são as preocupações do nosso tempo.

Orfeu reúne no mesmo espaço linguagens diversas que fazem com que o espectador nunca saiba o que se seguirá. Desde cenas dignas de uma comédia musical, ao clímax – na minha opinião – que se dá numa dança harmoniosa e emocionante da bailarina Delphine Nguyen, toda a performance é imprevisivelmente encantadora; transporta-nos para outras realidades, também pela dualidade vídeo – coreografia. De destacar ainda o papel de Merlin Nyakam, com toda a sua teatralidade e dança afro-contemporânea, para além da prestação de Luca “Lazylegz” Patuelli, na sua dança em moletas, metáfora da superação humana que, no encontro com Orfeu (interpretado por Karim Randé, numa dança acrobática em andas) proporcionou ao público ainda umas gargalhadas. Não descurar, obviamente, o trabalho de todos os restantes bailarinos, cantores líricos e músicos.

Esta é uma peça extravagante e lúdica, uma simbiose da ‘assinatura’ de Montalvo-Hervieu, que se destaca pela “fluidez, rapidez e precisão” de movimentos (fonte: Culturgest) . Conta ainda com uma variedade de influências sui generis como a pintura de Peter-Paul Rubens, Orfeu confia no auxílio dos deuses no inferno, 1635, e a obra Orfeo de Monteverdi, que elevam toda a multiplicidade de linguagens e dão forma a um universo expressivo e pitoresco.

 “Um mito é sempre um drama humano em forma condensada.” (fonte: Culturgest)

 

Se ficou curioso/a, não pense duas vezes. É hoje a última apresentação deste espectáculo na Culturgest, às 17h. A duração é de, aproximadamente, 1h10. O preço dos bilhetes é de 20€, mas até aos 30 anos fica no valor simbólico de 5€.

 Ficha Técnica (fonte: Culturgest):

Coreografia José Montalvo e Dominique Hervieu Cenografia e conceito vídeo José Montalvo Figurinos Dominique Hervieu assistida por Siegrid Petit-Imbert
Música Claudio Monteverdi, Christoph W. Gluck, Philip Glass, Francesco Durante, Giovanni Felice Sanches, Giuseppe Maria Jacchini, William Byrd, Luiz Bonfa, La Secte Phonétik, Sergio Balestracci Conselheira de dramaturgia Catherine Kintzler
Luz Vincent Paoli Criado com e interpretado por: Bailarinos Stéphanie Florant, Natacha Balet, Delphine Nguyen (nome artístico Deydey), Babacar Cissé (nome artístico Bouba), Grégory Kamoun, Brahem Aiche (na apresentação em Lisboa, Brahem Aiche aparece apenas no vídeo), Luca Patuelli (nome artístico Lazylegz), Karim Randé, Stevy Zabarel (nome artístico Easley) Bailarinos-cantores Sabine Novel (soprano), Blaise Kouakou (baixo), Merlin Nyakam (baixo) Cantores e músicos Soanny Fay (soprano), Julien Marine (contra-tenor), Sébastien Obrecht (tenor/violoncelista), Florent Marie (tiorba)Colaborador vídeo Pascal Minet Infografia Franck Chastanier, Sylvain Decay, Clio Gavagni, Michel Jaen Montalvo, Basile Maffone Assistentes de coreografia Roberto Pani, Joëlle Iffrig Co-produção Théâtre National de Chaillot, Association artistique de l’Adami/“Talents Danse Adami”, Grand Théâtre de Luxembourg, Théâtre de Caen

Texto por Maria Palma Teixeira

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