Rock In Rio – 5º dia (03/06/2012)

Texto por João Miguel Fernandes / Fotos por Hugo Rodrigues

Naquela que foi a noite onde Bruce Springsteen deu um concerto que será recordado para sempre, coube aos sempre energéticos Kaiser Chiefs a tarefa de aquecer o público.

Mestres em descargas de energia, os britânicos Kaiser Chiefs regressaram a Portugal pela milésima vez e voltaram a reinventar-se. Esta é uma daquelas bandas que ao vivo ganha imensos pontos, sendo que em cada concerto são capazes de inovar e dar ainda mais de si. Foi com uma intro bem-disposta, uma cover de Dire Straits (Money For Nothing), que os Kaiser Chiefs começaram o concerto, mesmo à hora certa.   De seguida, “Never Miss a Beat”, um dos grandes êxitos da banda, que pôs imediatamente toda a gente aos saltos. Com a garra que lhe é típica, Ricky Wilson, vocalista da banda, agarrou o público com toda a sua dedicação em palco. Entertainer incrível, Ricky ainda iria inventar algo fantástico neste concerto. “Every day i love you less and less” encaminhou o concerto para o topo. Pouco faltou até que ouvíssemos “I predict a riot” e “Ruby”, duas das melhores músicas da banda. Embora não seja um projecto muito inventivo em estúdio, são bastante cativantes ao vivo e, claro, que o melhor estava guardado para perto do fim. A meio de “Take My Temperature”, Ricky decide saltar para fora do palco e correr para o slide. De forma espontânea e natural, o vocalista dos Kaiser Chiefs, ainda a cantar, foi preso ao slide e atirou-se até à outra ponta do recinto do Rock In Rio. Sempre a cantar, Ricky foi aplaudido por toda a gente no recinto. Ao voltar para o palco, acompanhado de vários seguranças, ainda foi capaz de continuar a cantar e acabar a música. Mais um momento emblemático de um concerto de Kaiser Chiefs e do Rock In Rio Lisboa. No que toca a espectáculos ao vivo, esta banda é sempre uma aposta ganha. Que para o ano estejam cá outra vez num qualquer festival.

Antes de Kaiser Chiefs tempo ainda para darmos um salto ao palco sunset para assistirmos a David Fonseca e Mallu Magalhães.  Não se sabe bem qual é a razão, mas a verdade é que estes duetos não têm dado bom resultado, na sua grande maioria. Embora consigam criar um espectáculo diferente, mais interessante, por vezes assassinam os temas dos artistas principais. No caso de David não foi bem o que aconteceu. Mas salvo o concerto do David e o de Mão Morta com Mundo Cão, o resto não tem corrido pelo melhor. Ao seu jeito, sempre simpático, David Fonseca arrancou para um bom concerto, cheio de energia e boa disposição. Passando um pouco da sua carreira em revista, com “A cry 4 love”, “Superstars” e “Kiss me, oh kiss me” e algumas falhas graves de som, David Fonseca encantou a multidão que se encontrava junto ao palco sunset para o ver. Mallu Magalhães, na sua figura frágil e encantadora deu uns toques de inglês e português, apresentou algumas músicas suas e cantou outras com o David, tornando o concerto bonito.

Há uma ligação directa muito forte entre Portugal e James. Há um amor muito forte entre ambos, há vários anos que é assim. Os James são daquelas bandas especiais, cheias de magia, muito graças ao carismático Tim Booth, sempre no seu estilo muito próprio, principalmente quando começa a dançar, ele que inicialmente foi convidado para ser dançarino da banda. Com mais de trinta anos de carreira, os James percorreram vários sucessos no Rock In Rio. Com cerca de uma hora para actuarem, a banda soube escolher bem as músicas. “Ring the bells” e “Getting away with it” foram apostas mais que ganhas. Destaque para a forma como Tim Booth olhava para o público, como que encantado, para a forma como se dedicou a este concerto, com as suas danças extravagantes, e ainda para a mensagem política que o guitarrista da banda, actualmente a morar no Porto, decidiu enviar aos portugueses. Com boas músicas e uma magia que lhes é inerente, os James conquistaram o público da Bela Vista e deram um grande concerto, carregado de emoção. E que dizer de “Sometimes” e o mega êxito “Sit Down”? Pérolas da música dos últimos (muitos) anos. Os James estão ainda em forma para darem um grande concerto e Tim Booth continua a ser um grande frontman.

Lenda viva da música mundial. Um dos nomes mais importantes da indústria musical desde que ela existe como tal. Provavelmente o músico vivo mais importante do mundo. Bruce Springsteen é um deus imortalizado não só pela sua música, mas também pelo seu lado político, sempre muito ligado à América e a mensagens de paz. Actualmente com 62 anos e acompanhado pela brilhante E Street Band, Bruce regressou a Portugal passados 19 anos. Após inúmeras passagens por Espanha, país que adora, Bruce voltou a Portugal e deu aquele que é considerado por muitos não só o melhor concerto de sempre num Rock In Rio, mas também um dos melhores dos últimos anos em Portugal e, um daqueles que se vai ainda recordar daqui a muitos anos.  Com um novo álbum na bagagem, Bruce Springsteen surpreendeu a audiência pela escolha das músicas. Uma surpresa positiva, já que decidiu retirar alguns temas do novo álbum e ceder aos inúmeros pedidos das pessoas que tinham levado cartazes com o nome de músicas que queriam ver tocadas. De forma energética o concerto abriu com “We Take Care of Our Own”, grande single do novo álbum. Em jeito de concerto épico, Bruce e a sua fabulosa banda, uma das melhores do mundo, carregaram baterias e a todo o gás despejaram “Wrecking Ball” e a imortal “Badlands”, que levou o público à loucura. Figura histórica na música mundial, Bruce Springsteen estava com bom aspecto, boa energia e uma excelente voz, bem rouca, bem forte, bem ao seu estilo. Mais simpático do que alguma vez, Bruce e a sua banda entretiveram o público com mais do que apenas música. Um “teatro” bem montando, natural, nada forçado, onde houve desde momentos em que Bruce Springsteen falou bastante em português (a ler, é verdade, mas mesmo assim é de louvar) a momentos em que o seu guitarrista espreme uma esponja cheia de água para a cara. Mas antes de tudo isso, “My city of ruins” e “No surrender” elevaram o concerto a algo ainda mais superior. Que qualidade musical que têm os membros da E Street Band! Desde o mítico baterista, ao jovem saxofonista, sobrinho de uma lenda, Big Man, ao guitarrista e coros. A E Street Band é, provavelmente, tal como diz Bruce, a melhor banda do mundo. Com Bruce Springsteen à frente cria o máximo que a música pode dar. Seja-se ou não fã do Boss, é impossível negar a importância e qualidade desta enorme figura, que esteve sempre muito bem-disposta, com garra e a puxar pelo público que tanto o queria ver. Foi em “I’m on Fire” que o público percebeu que este iria ser o melhor concerto de sempre. Bruce, com toda a energia a entoar o refrão e a passar rapidamente para o resto das músicas. A meio do concerto decidiu espantar ainda mais o público e convidar um miúdo da audiência para vir com ele para palco cantar a “Waitin’ On a Sunny Day”, criando um momento emocionante e único. “The River” foi um dos momentos especiais da noite, com Bruce a empunhar a sua harmónica e a cantar emocionadamente “and into the river we die”. Podíamos ficar por aqui que já estava perfeito, mas o Boss decidiu oferecer-nos o que anda a faltar há tantos anos  e “The Rising” e “Thunder Road” fizeram tudo explodir, quer dizer, até chegarmos a “Born in the U.S.A.” que incendiou totalmente todo o recinto. Momento memorável na história de concertos ao vivo em Portugal. Cerca de 80 mil pessoas a gritarem o refrão dessa música e a delirarem com o que vinha a seguir. “Born to Run”, “Glory Days”, “Hungry Heart” e “Dancing In The Dark”, tudo músicas memoráveis e únicas. Para terminar ainda mais duas surpresas, mesmo após vermos Bruce totalmente exausto, mas a não querer deixar o palco, “Tenth Avenue Freeze-Out” e “Twist and Shout”.

Em suma, os 80 mil que tiveram a enorme sorte de terem visto este concerto vão guardar para si uma das melhores memórias que Portugal teve em concertos. Bruce Springsteen and the E Street Band é a melhor banda do mundo, com o maior artista vivo do mundo. O resto é apenas conversa.

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