Dark Horse

Olhemos um pouco para o cartaz do filme. O que vemos? Um pescoço, uma camisola cor-de-rosa com o botão de cima aberto a deixar alguns pêlos sair para fora. No centro, mais ou menos, está um um colar com as palavras ‘Dark Horse’. Se tivesse de apostar do que se trata o filme só por esta imagem, estaria convencido de que era sobre a história de um transsexual prostituto. Quem tiver coragem de ultrapassar esta ideia vai descobrir que não é o caso. Aliás, por detrás de uma péssima jogada de marketing, está um filme até agradável de se ver.

A história centra-se em Abe, uma personagem nos seus 30 e poucos, com um pouco mais de peso do que devia e com um coração de criança. Não assume responsabilidade pelos muitos falhanços da sua vida, estando, aparentemente, satisfeito consigo mesmo. No entanto, tudo isso é uma máscara e Abe sente-se exactamente como qualquer pessoa poderia adivinhar. Está profundamente deprimido, quer encontrar companhia e inveja o seu irmão, um médico bem sucedido. Num casamento conhece Miranda e de forma pouco convencional vai-se aproximando dela. É a história (demasiado) improvável de duas pessoas distintas que se apaixonam, sendo que o foco está sempre na personagem de Abe.

Facilmente percebemos o que vai na cabeça da personagem principal. É uma criança grande que culpa tudo e todos por aquilo que se passa na vida dele. Ao longo do filme vemos como lida com a familia, com o emprego que o pai lhe arranjou e com Miranda. Em público é uma pessoa aparentemente confiante, em privado afunda-se na depressão. Isto seria suficiente para compreendermos Abe, mas o filme mostra-nos também algumas alucinações que ele vai tendo com outras personagens que, no fundo, servem como sua consciência. É completamente desnecessário e à medida que o filme vai avançando, estas vão-se tornando também cada vez mais regulares. Torna a história confusa e não tem qualquer sentido. Dado que o filme, já com estas cenas, tem apenas 84 minutos, é provável que estes momentos estejam a cumprir a nobre função de “encher chouriços”. Não resulta.

Além de Abe, apenas a personagem de Miranda tem algum interesse, sendo que parte dele vem da representação da actriz, Selma Blair, que está muito bem num papel em que tem de fazer o maior esforço para não mostrar emoções (talvez Kristen Stewart fosse perfeita para este papel). É bastante improvável a forma como se deixa “conquistar” por Abe, mas à medida que o argumento avança, conseguimos perceber melhor as suas decisões. As restantes personagens, mesmo Marie que tem algum destaque, são aborrecidas.

Em suma, o filme mostra-nos uma personagem principal com algum interesse. A maior parte das cenas de Dark Horse poderiam ser consideradas comédia, mas ao perceber os problemas de Abe, ultrapassa-se o lado cómico e entra-se num drama com algum poder sobre o espectador. Infelizmente, tem pouco conteúdo. Tirando as cenas desnecessárias, tornava-se numa curta-metragem que com um argumento destes, onde é preciso desenvolver bem as personagens, não iria resultar. Se o tema interessar, não se deixem assustar por um cartaz horrível. O filme não é mau, apenas se pode tornar um bocado chato.

Texto por Sandro Cantante

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