Optimus Primavera Sound – 1º dia (07/06/2012)

Texto por Gustavo Machado

Numa tarde em que o sol brindou os visitantes da cidade invicta, arrancou o Optimus Primavera Sound 2012. Um festival com um público-alvo diferente dos muitos que por cá se fazem, com muitos nomes emergentes no mundo da música e alguns revivalismos bem afinados, como manda a cartilha retro.

Foi com um recinto ainda muito vazio que os Bigott subiram ao palco Optimus para apresentar a sua mistura de rock e funk em tom divertido. O quinteto espanhol entrou com garra e as estranhas qualidades de bailarino do vocalista contagiaram a audiência, que ia crescendo a cada minuto. O sol de fim de tarde, o relvado do parque da cidade e as toalhas oferecidas pelo principal patrocinador do evento convidavam a assistir ao concerto sentado, mas quem preferiu ver o concerto em pé, ao final das três primeiras musicas já tinha deixado o ritmo alegre dos Bigott roubar-lhes uns (tímidos) passos de dança. Com o avolumar da audiência (com um rácio de bigodes superior ao da selecção do México 86) foram cada vez mais os que se deixaram levar pela boa atmosfera criada na abertura do festival. Sempre bem-disposto e divertido, Borja Laudó continuou a enriquecer o ar musical que se respirava na zona costeira de Matosinhos, e embora no final se tenha perdido um pouco em instrumentais demasiado prolongados, não comprometeu a boa actuação deste conjunto de nuestros hermanos, que certamente aguçaram o apetite de quem assistiu a este concerto.

À hora marcada, Bradford Cox, o rosto do projecto Atlas Sound, iniciou o seu one man show. O frontman dos Deerhunter trazia a Portugal a sua faceta mais pessoal e intimista, enquanto por todo o recinto, seriam já milhares as toalhas estendidas, onde os corpos pálidos dos “invasores” do norte da europa recebiam os últimos raios de sol. Antes do início do festival a organização estimava uma percentagem de 70% de visitantes internacionais e, embora esse número seja um pouco exagerado, é verdade que talvez metade dos presentes fossem oriundos de outras paragens.

Não foram muitos os que trocaram o sol pelo som do norte-americano, cujo concerto deixou poucas saudades. Talvez tocar de dia, num projecto como este, seja um grande turnoff. Talvez um espaço tão grande não seja fácil de ocupar por um homem, uma guitarra e uma harmónica. Ou talvez o som um pouco alto e inconstante tenha sido o problema. O que é certo é que as palmas e alguns sorrisos que Cox arrancou se deveram mais aos elogios à cidade (aparentemente, uma das suas favoritas) e ao revisitar das memórias guardadas de um concerto no Porto-Rio.

Quando Yann Tiersen subiu ao palco Optimus, as nuvens que pairavam sobre os festivaleiros ameaçavam estragar a festa. O concerto arrancou numa toada dedicada à electrónica, sem aquecer o público que agora já quase enchia o recinto. Quando a chuva apareceu, a massa agitou-se em busca de abrigo, alguns guarda-chuvas abriram-se e Yann relembrou que Barcelona também os recebeu com chuva, o que levou o francês a assumir as culpas e a chamar a si a responsabilidade do mau tempo. Mas o pequeno aguaceiro não impediu a banda de se aplicar, e com o cair da noite, os músicos em palco aproveitaram a magic hour para criar um ambiente mais intimista e mais adequado às suas melodias com aroma a fantasia. Tal como no concerto anterior, o som sofreu com a instabilidade do vento, mas talvez as ondas sonoras que se propagavam de uma forma tão irregular tenham ajudado a banda a escolher o caminho a seguir na escolha musical. No miolo da actuação, ouviram-me canções mais trabalhadas, mais intensas e que aproveitam melhor o enorme espaço que o festival proporciona. Curiosamente, foi com um violino que Yann agarrou o público. Talvez o primeiro grande momento do festival, com o silêncio a instalar-se no recinto para ouvir a luta de Tiersen com um belo violino, que o francês tratou de forma exemplar. As projecções apareciam  timidamente no fundo do palco, e a noite tardava a cair, mas o concerto arrancava assim, com o recurso a sonoridades mais familiares, para um final intenso que deixou fãs e curiosos à espera de uma oportunidade de ver a banda num espaço mais adequado.

Quando a noite tomou conta do recinto entraram em cena os The Drums. Logo a abrir “What you Were” pôs a plateia a dançar. O conjunto de Brooklyn dedicou palavras simpáticas ao festival e tentou cativar o público desde cedo. A peculiar forma como o frontman dança é uma das imagens de marca desta banda que bebe influências nuns The Smiths com uma pitada eletrónica,  e com “Best Friend”, a segunda música do alinhamento, a banda consegue mesmo arrancar palmas de todo o público. Passada a euforia inicial, as primeiras filas continuaram a vibrar com o concerto, mas o resto da plateia parecia alheia ao que se passava no palco até que “Money”, retirada do último registo da banda, foi o tema que voltou a pôr os esqueletos em movimento. Um tema orelhudo e com um ritmo contagiante, (e tão bem aplicado à crise que paira sobre o sul da Europa) que fez o público cantarolar “I want to buy you something, but i don’t have any money!” e deu a descarga de energia que estava bem guardada nos cofres-fortes da nação indie. Uma grande ovação deveria ter sido o combustível para um concerto mais pujante, mas após esse grande momento voltou a toada morna que tinha sido característica até ali. Já perto do fim os ânimos voltaram a animar-se com “Let’s go surfin”, que veio salvar um concerto de altos e baixos, de uma banda que parece ter mais para dar do que demonstrou no palco Primavera.

Mais uma troca de palco, mais um movimento das massas. A vez da brit pop dos Suede se dar a conhecer tinha chegado, e Brett Anderson atacou o concerto desde a primeira música! Num alinhamento que contou com temas como “Trash”, “Filmstar” e “The wild ones”, os britânicos pareciam decididos a quebrar a relativa acalmia que se tinha vivido até então. A idade parece não pesar neste inglês que cantou a plenos pulmões todos os hits que a banda juntou ao longo de décadas de carreira. Talvez não fossem a banda mais esperada do festival, mas foram os primeiros a mostrar uma coesão e uma força em palco que fez o público portuense libertar a sua generosidade em forma de palmas e coros nas músicas dos Suede que passaram incólumes ao tempo. Brett Anderson encheu o palco e criou uma empatia enorme com os presentes. O suor ia tomando conta da camisa que cobria o corpo esguio de um animal de palco, enquanto este ia passeando pela frente do público e incitando ao sing along em “Everything will flow”. Os botões da camisa também se foram separando e a energia continuava a brotar de Anderson, que comandava os seus Suede até ao sucesso. Ponto alto do concerto, o super êxito “Beautiful Ones”, deu à banda a consagração para que tanto trabalharam em palco, e deixou o caminho aberto para um encore mais sombrio, que fechou com chave de ouro o primeiro grande concerto do festival.

Aos Mercury Rev cabia a difícil tarefa de substituir os Explosions In The Sky, banda muito aguardada mas que cancelou o concerto no Optimus Primavera Sound. Com um som a viajar entre o rock psicadélico e o post-rock, esta banda norte-americana não foi capaz de prender a atenção do público, que aproveitou para rechear o estômago, matar a sede ou simplesmente descansar e conversar. Se a entrada em palco causou alguma estranheza pelo clima enigmático criado, o miolo do concerto foi competente e ofereceu aos mais resistentes alguns bons momentos. Os quase 20 anos de carreira emprestam ao conjunto de Buffalo uma consistência assinalável, mas que não chegou para muito mais do que entreter as vistas de quem escolheu o parque da cidade para passar a noite de quinta-feira. No plano musical, destaque para a bateria, que se assume como o motor de toda a banda, e que os retira de uma vulgaridade que pode estar perigosamente perto, especialmente quando embarcam em viagens sonoras para um mundo em que aparentemente apenas os membros da banda pareciam habitar.

Passava já das duas da manhã quando a multidão se juntou em frente ao palco Optimus para receber calorosamente os The Rapture. A banda conta com uma boa base de fãs em terras lusitanas e aproveitou o facto de se sentir em casa para apresentar um concerto bem consistente, ainda que numa toada de piloto automático. Com o adiantar da hora o cansaço começou a chegar a muitos dos festivaleiros, em particular aos oriundos de latitudes superiores, que por um misto de bebida e sol já deixavam os corpos dormitar um pouco por todo o recinto. Enquanto isso, os The Rapture continuavam a debitar o seu rock bem coeso, ainda que agradavelmente dançável. Com uma secção rítmica muito atractiva (destaque para alguns grandes pormenores de baixo!) e uma voz peculiar mas bem trabalhada, a banda conseguiu finalmente conquistar o recinto, e colocar toda a gente a dançar. Sem perder o sentido rítmico que os caracteriza, os The Rapture, bem liderados por um Luke Jenner bem ambientado aos grandes palcos, continuaram a bombardear um som rock que deu até para momentos de crowd-surf por parte dos mais efusivos.

Foi ao som do funk gingão dos The Rapture que terminou o primeiro dia do Optimus Primavera Sound 2012. Um dia que contou com cerca de 20.000 espectadores a presenciar um arranque morno da primeira edição do festival em terras lusas, mas que abriu o apetite para o (muito) que ainda está para vir.

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