Optimus Primavera Sound – 2º dia (08/06/2012)

Texto por Gustavo Machado

Sol bem alto, calor, e um belo cenário no parque da cidade do Porto. Tudo preparado para mais um dia de Optimus Primavera Sound, desta vez com todos os palcos em pleno funcionamento, e com nomes para todos os gostos. Não há tempo para ver tudo o que de bom passa pelos quatro palcos do festival, e como a vida do Primavera é feita de escolhas, aqui ficam as nossas.

Embora com a tarefa sempre complicada de abrir o dia, os Linda Martini entraram a todo gás, servindo-se do álbum “Casa Ocupada” para abrir as hostilidades com “Ameaça Menor”. O som que saía das colunas do palco Primavera estava longe de ser satisfatório, e a banda sentiu-se perdida em busca de uma afinação que lhes permitisse descarregar toda a energia que as suas bases punk/hardcore acarretam. Saindo da sua casa ocupada e espreitando o público com olhos de mongol o quarteto lisboeta deu-nos a sua melhor faca e puxou os primeiros grandes aplausos da tarde. Hélio Morais, sempre comunicativo, dava os parabéns ao Porto pelo belíssimo “jardim” e tentava quebrar a apatia que ainda reinava. O som continuava a não ser bom, mas estava a melhorar, e a energia em palco era tanta que em “Juventude Sónica”, Pedro Geraldes partiu o braço da sua guitarra. Um momento hilariante para todos, mas de assinalar a postura da banda que, entre risos, levou o tema até ao fim com grande profissionalismo.

Com a dedicatória do enérgico baterista a Fernando Lopes (o realizador do documentário sobre Belarmino Fragoso faleceu há cerca de um mês) arrancou a sequência final do concerto, com “Belarmino” a dar o mote para um sprint de “100 metros sereia”, o final habitual, mas nem por isso menos intenso, dos concertos de Linda Martini. No fim, as palmas merecidas e um  crowdsurf até à mesa de som com Hélio a dar o mote para Pedro Geraldes se juntar também à festa do final do primeiro concerto.

No palco Optimus esperavam já algumas pessoas pelo início do concerto dos We Trust. Ao contrário dos Linda Martini, que mereciam ter tocado bem mais tarde, os We Trust foram uma boa escolha para um fim de tarde bem passado a aproveitar o sol. André Tentúgal esteve muito bem a comunicar com quem estava disposto a soltar uns passos de dança, e conseguiu pôr a plateia a mexer com o som animado da sua banda, onde a secção de sopro dá aquele toque de jazz na relva que assenta tão bem num dia assim. Com o aproximar do final do concerto os We Trust usaram os seus maiores trunfos, e foram muitos os que aproveitaram para pôr mais uma vez os braços no ar e mexer as ancas. “Time (better not stop)”, “Swoon” (cover de The Chemical Brothers) e “This time the truth”  fecharam uma boa prestação de mais uma banda portuguesa que vai ficar na memória dos muitos forasteiros que voltaram a marcar presença na cidade invicta.

O Optimus Primavera Sound é um festival para ver e ser visto e, por isso, durante todo o final de tarde passeavam muitas almas que tentavam encontrar o som que lhes desse maior conforto. Entrámos também no espírito e fomos vagueando até ao palco Club, e perante uma cobertura muito bem composta, os Other Lives davam um concerto simpático, usando bem o violino, o trompete e a pandeireta para deixar sair o seu indie-folk bem montado. Uns passos mais abaixo entrava em palco uma banda que quase pode reclamar a paternidade do indie rock, os Yo La Tengo. Perante um público de todas as idades (até bebés com headphones protectores se encontravam na plateia) o colectivo de New Jersey mostrou que a única idade que conta é a de espírito, e as rugas da multifacetada Georgia Hubley mostraram carregar mais alma de palco do que muitos músicos inteiros.

Bons músicos só podem fazer boa música, e foi isso que os Yo la Tengo deram a uma massa enorme de gente que se apresentava diante do palco Primavera. Quando Ira Kaplan se sentou e atacou as teclas, deu o mote para um concerto diferente, mais animado e a puxar para a palma fácil que por cá temos, sempre pronta para entregar a quem nos sabe cativar. Para o final da sua actuação estava guardado um momento que terá dividido os gostos dos presentes: apoiado num bom ritmo debitado pelo conjunto baixo+bateria, Kaplan entrou num caminho alucinante, só dele, de batalha com a sua guitarra, que durou uns (aparentemente intermináveis) 10 minutos. Fechada a porta do espaço onde viveram por momentos, os Yo la Tengo mudaram uma vez mais o sentido do concerto e terminaram com “My Little Corner of the World”, com Hubley a abandonar a bateria e assumir a voz, convidando os técnicos para se juntarem à festa e dar por terminada uma passagem muito aplaudida dos norte-americanos por Portugal.

Desta vez a viagem foi curta, e levou-nos até ao palco Optimus para assistir à performance de Rufus Wainwright. Quando o extravagante canadiano entrou em palco, de calça branca com finas riscas pretas, blazer “au point“ e enormes óculos de sol, ouviu o burburinho de um festival que não parecia ter particular interesse na sua actuação. Mas assim que Rufus deixou sair as primeiras palavras de “Candles”, cantadas “a capela”, a multidão calou-se para ouvir a portentosa voz do autor de “Out of the game”. Depois da apresentação de “Greek Song”, surgiu um Rufus muito bem-disposto, conversador, que elogiou a cidade e as suas livrarias (um abraço a quem o levou à lello!) e continuou apoiado na sua extensa banda a encantar o parque da cidade que era agora uma manta de retalhos coloridos e alegres. O sol surgiu entre as nuvens antes de se deitar no mar, e tornou o cenário ainda mais bonito, algo que Rufus não deixou passar em claro, dizendo “what a beautiful sunset… I must look great!”.

“One Man Guy”, versão do pai Loudon Wainwright, abriu espaço para a partilha de protagonismo com as outras fantásticas vozes da sua banda, mas foi quando o canadiano se sentou ao piano, que elevou o concerto a um plano ainda mais elevado. Mas que voz! Que afinação incrível, que talento estava ali em frente a um público que não era o seu, mas que se estava a render à qualidade do som que aquecia o ar frio trazido pelo mar. Por entre apelos ao voto nas eleições norte americanas e várias dedicatórias, o concerto foi avançando e, com o aproximar da entrada em palco de muitas bandas que apelam mais à nação indie, o espaço foi ficando mais vazio. Com menos apoio do público, Rufus conduziu a sua voz a um porto seguro, e arriscou sons mais dançáveis, mostrando estar à vontade para entrar por todos os campos que a música tem para desbravar, antes de, já sozinho em palco, cantar a sua versão de “Hallelujah” (orignal de Leonard Cohen) e fechar da melhor forma um enorme concerto no palco Optimus.

21.30, e Wayne Coyne toca a sirene do seu megafone fumegante para chamar o seu povo para a festa. E que festa! Os Flaming Lips usam balões gigantes, muitos confetis e grupos de jovens saltitantes em palco, não para terminar a festa, mas para a iniciar. Com uma grande base de seguidores muito ansiosos para os receber, os Flaming Lips seguem em direcção ao triunfo com todo o seu poder festivo! Mais uns elogios e arranca o single “The Yeah Yeah Yeah song”, que à segunda música dava o concerto como ganho! A cada tema, uma nova forma de surpreender: Coyne estava dentro de uma bola gigante onde flutuou sobre as dezenas de milhares que assistiam de boca aberta à sua descarga de energia colorida.

Depois da tempestade de festa veio a bonança em forma de baladas divertidas que em “Yoshimi Battles The Pink Robots” trouxeram um grande sing along! O show dos norte-americanos era atractivo, mas estava na hora de ir visitar os “outros lips”, os Black Lips, que no palco Club já faziam a delícia dos seus (muitos) seguidores. Nada de novo, nem de muito bem conseguido, mas que aparentemente agrada a uma boa franja do público, que deixamos a curtir o concerto, e voltamos para o ponto anterior para ver o fecho de Flaming Lips. Mais festa, mais fitas, mais efeitos cénicos, e mais uma série de ovações que consagraram a banda como os grandes vencedores da noite.


Logo ali ao lado subiam ao palco os Wilco, para criar um ambiente relaxante de contemplação com a sua onda indie bem soft, a contrastar com a parafernália visual dos The Flaming Lips. As opiniões sobre a banda pareciam estar bem divididas: quem já gostava ficou bem preso ao palco, quem não era seguidor, não tardou a procurar outras opções. Deixamos os Wilco a tentar conquistar o anfiteatro natural do parque da cidade, e embora o seu sucesso nesta tarefa possa ser seriamente questionado, o empenho da banda foi inquestionável, tal como é inquestionável a qualidade do seu rock-pop doce e melódico.

Por todo o recinto havia gente, muita gente, em busca de comida, bebida, descanso e boa música. Uma saudável mescla de idades, nacionalidades e estilos dava um colorido fantástico ao recinto. Passámos pelo palco Club onde os Neon Indian iam acalorando a tenda que começava a dar mostras de se estar a preparar para receber os muito aguardados Beach House.

 No Palco ATP, o trio canadiano Shellac brindava os presentes com o seu noise rock e com uma boa atitude em palco. Sempre em movimento os norte-americanos estiveram à altura e conseguiram pôr os presentes a cantar as suas músicas mais conhecidas.

À uma da manhã, os norte-americanos Wolves In The Throne Room subiam ao mesmo palco para nos brindarem com o seu black metal, dando um concerto fantástico. Foi uma ode aos sons mais extremos. Todo o cenário era perfeito: desde as árvores que rodeavam o recinto, até ao palco decorado com todas as capas dos seus álbuns que se evidenciavam no negrume deste que era constantemente invadido pelo fumo, lembrando o nevoeiro tão característico. Sem sequer dirigir uma única palavra ao público (e nem era preciso!) conseguiram criar uma atmosfera única e completamente diferente de todo o festival. A intensidade e beleza dos riffs encheram por completo todos os que ficaram no palco para os ver e, certamente, ficariam ali até de manhã se assim fosse possível. Os Wolves In The Throne Room mostram que para se tocar black metal não é preciso cair no cliché do corpse paint tão (ab)usado, fazem-no de uma forma despida de clichés e “regras” e fazem-no de uma forma perfeita e magnífica. Foram os reis da floresta.

Foi uma tenda do palco Club a rebentar pelas costuras que recebeu os Beach House, um duo (aqui transformado em trio) norte-americano que fez as delícias de todos quantos se espremeram para caber no reduzido espaço disponível. Um cenário simples, um jogo de luz tremendamente eficaz e um céu estrelado privado como pano de fundo, davam a sensação que estávamos a olhar para o palco através de um telescópio mágico, que nos trazia dos céus do Porto o brilhantismo do indie/pop.

Apesar do grande concerto, muitos não terão conseguido vivê-lo na sua plenitude devido ao constante entra e sai na tenda, já que à mesma hora havia bons motivos de interesse nos outros palcos do festival. Entretanto, indiferentes ao movimento do público, os Beach House desfilavam as suas belíssimas melodias, com destaque para “Lazuli” e “Zebra”. Quando soaram os primeiros acordes de “Myth”, o movimento parou, todos queriam “ver esta” e a atenção voltou-se para de onde nunca devia ter saído. Belo momento (ou talvez aquele que pudemos apreciar melhor) de um concerto que merecia um outro palco, com mais espaço para deixar respirar as almas apertadas pela incapacidade de alguns festivaleiros em perceber a diferença entre mobilidade e desrespeito, mais interessados em manter a pose do que na voz de Victoria Legrand, que abanou os seus ruivos cabelos com vigor até ao final de uma excelente “Irene”, que encerrou o concerto.

No palco Optimus, os M83 enfrentavam um desafio, e ponderava-se se os franceses conseguiriam transformar o parque da cidade numa gigantesca pista de dança. Não tardou a que as dúvidas se desfizessem, e que todos os resistentes presentes no recinto deixassem, nem que fossem em tom de brincadeira, escapar uns passos de dança capazes de figurar num programa de vídeos divertidos. Muito do electro-rock do projecto do gaulês Anthony Gonzalez pode até ter um toque demasiado fundido com os piores álbuns de compilações disco dos anos 80, mas ninguém se importa que se recordem fatos de treino coloridos e brilhantes, quando o ambiente é de festa.

Com uma cenografia muito bem trabalhada (destaque para o efeito fantástico criado por três losangos gigantes, onde tudo se pode projectar e imaginar), os M83 foram dando motivos para mover o corpo dos foliões, e com “Midnight City”, mesmo antes do final do concerto, arrancaram uma pequena onda de euforia no recinto, que se despedia de mais um dia de Optimus Primavera Sound, num segundo round bem mais quente, divertido e entusiasmante que o primeiro.

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