Cosmopolis

Se pegarmos na metafisica estrutural dos últimos três filmes de Cronenberg, Cosmopolis foge um pouco a essa estrutura. Embora se enquadre narrativamente com “A Dangerous Method”, nunca é um filme tão evolutivo a nível de personagens quanto o anterior trabalho de Cronenberg.

A carreira de David Cronenerberg é marcada por filmes icónicos, alguns com sucesso abismal, outros olhados com alguma desconfiança, mas no geral o realizador é um mestre em vários pontos. Primeiro, porque consegue criar uma narrativa em espiral com um nível de interesse bastante elevado, em segundo porque consegue potencializar uma história banal, ou algo fantasiosa, num filme terrivelmente complexo.

Cosmopolis passa-se em cerca de 24h. Não é um filme para as massas, muito menos para quem for atrás do actor Robert Pattinson. Há que compreender que Cosmopolis é, ao nível de “A Dangerous Method” mas ainda mais exagerado, um filme de narrativa lenta, onde a história é o que menos interessa, mas sim os diálogos e os momentos, separados de um todo mas que na verdade se ligam numa enorme filosofia sobre o capitalismo.

Antes de darmos os crédidos a Cronenberg pelo argumento genial, temos que reconhecer a enorme visão cosmopolita e tão actual que Don DeLillo retrata no seu livro com o mesmo nome do filme. Cosmopolis é toda uma visão de um mundo globalizado, dependente do capitalismo e com um fosso cada vez maior entre a sociedade elevada e a dos mais pobres. Se fosse só isto já era proveitoso, mas Cronenberg conseguiu explorar esta visão de forma ainda mais cativante.

Cronenberg é também mestre ao realçar actores. Paul Giamatti está excelente numa cena em que existe um puro confronto entre capitalistas e a classe baixa. Ali não há espaço para apenas Giamatti e Pattinson, mas também para uma importante representação metafórica de uma realidade cada vez mais próxima da nossa. Mas não é só Giamatti e Pattinson qe brilham, também Samantha Morton e Juliette Binoche tem personagens profundos.

Com um tipo de realização claramente a fazer lembrar um Cronenberg pré-”A History of Violence”, Cosmopolis prende-se bastante ao sentimento de asfixia. Durante todo o filme somos levados a compreender a mente de Eric Packer através da sua limousine, o cenário principal de todo o filme. O facto de se focar objectivamente num espaço fechado, torna o filme algo perturbador a nível de ansiedade. Se juntarmos a enorme qualidade de diálogo e o clímax criado pelos personagens ao longo do filme, das duas uma, ou temos um filme que nos vai agarrar do primeiro ao último minuto, ou temos um filme que nos vai passar completamente ao lado.

Cosmopolis segue 24h do dia de Eric Packer, um milionário que está directamente ligado às bolsas mundiais. Eric é um pequeno génio e os desafios que tem na vida estão a esgotar-se. Porém, este depara-se com um problema que lhe vai fritar o cérebro.
Eric é o retrato puro do milionário que atingiu tudo na vida e para o qual o dinheiro tem pouco significado, além de servir para controlar tudo. Se analisarmos a forma como o personagem é desenvolvido vamos chegar à conclusão que Eric é alguém que está sozinho na vida e que nem o facto de ficar sem a sua esposa, o faz realmente importar-se com relações. Eric Packer está desligado de um mundo que lhe passa totalmente ao lado e durante o filme temos imensas cenas que constatam isso mesmo.

A nível técnico Cosmopolis pode não ser o filme mais criativo de sempre, mas Cronenberg consegue criar uma enorme tensão entre Eric e tudo o resto. Não existem muitos planos contra-picados, nem planos de profundidade, mas Cronenberg consegue genialmente criar a ilusão de que o mundo de Eric está dentro daquela limousine.

Goste-se ou não do filme, Cosmopolis é um reflexão ideológica de uma realidade cada vez mais próxima da nossa, materialista e imoral, em que os sentimentos vão ficando para trás e o poder ganha uma nova dimensão. David Cronenberg conseguiu reinventar-se e criar uma obra de puro interesse, com um Robert Pattinson em excelente forma e bastante capaz de interpretar Eric Packer. Embora possa ser comparado a “A Dangerous Method” pela forma como a narrativa evolui, Cosmopolis é algo diferente, meio perdido entre o Cronenberg de antigamente e o Cronenberg anti-sentimentalista, ao mesmo tempo que se serve de exemplos sentimentalistas para exemplificar a ausência dos mesmos. Uma obra bastante interessante.

Texto por João Miguel Fernandes

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