Optimus Primavera Sound – 3º dia (09/06/2012)

Texto por Gustavo Machado

Ao terceiro dia de festival, as nuvens que tinham ameaçado estragar a festa nos dias anteriores não deram tréguas e a chuva caiu bem forte no parque da cidade. Tão forte que o palco Optimus onde os The Right Ons se apresentaram estava completamente descaracterizado, com plásticos a proteger as luzes, e a banda confinada a poucos metros de um canto do palco para se abrigar da intempérie. Sem medo da água, os espanhóis tiraram da alma todo o seu rock simples e descomplexado, que serviu de pretexto para secar o espírito das cerca de duas centenas de pessoas que assistiam ao esforço da banda.

À mesma hora, o palco que registava a maior enchente era o Club. Não porque os Veronica Falls fossem um chamariz muito apelativo, mas porque era o único local onde se podia estar seco por uns momentos. Foi um desfilar de canções pop sem grande novidade musical, que entretiveram quem bebia a sua cerveja, e procurava decidir que bandas mereciam o esforço de aguentar a chuva que continuava a cair impiedosamente. Depois de carregar baterias, ganhamos coragem para deixar o conjunto equilibrado de vozes masculinas e femininas (talvez o melhor ponto dos ingleses) e rumar a outras paragens e sonoridades mais apelativas.

No caminho para os palcos principais, uma fila enorme serpenteava o recinto, formada por quem não queria perder um bilhete para os últimos sons do festival, que seriam tocados no dia seguinte na Casa da Música. Ali ao lado, os voluntários debatiam-se com pequenos grupos de pessoas sedentos por um impermeável. Solução? Manter quem buscava um abrigo atrás de uma vedação, a partir da qual eram atirados os tão desejados impermeáveis, que eram disputados no ar ou no chão enlameado, criando-se um momento nada dignificante e um cenário perfeitamente evitável!

Enquanto isso, os Spiritualized enchiam o palco Primavera com o seu rock que era apreciado de perto pelos fãs mais fiéis, e através do pequeno conforto que as árvores ofereciam aos curiosos. Sem encantar, mas também sem desiludir, os Spiritualized continuaram a dar bons motivos para resistir a quem tentava esquecer a chuva, e lançaram a muito apropriada “Lord let it rain on me” que numa toada mais country arrancou uma bateria de aplausos considerável, tendo em conta o reduzido número de espectadores presentes (quando comparado com os dias anteriores).

Após a sua versão de “Walkin’ with jesus” (original dos Spaceman 3, o anterior projecto de Jason Pierce) os Spiritualized deixaram a sua faceta rock e voltaram para o reino do psicadelismo que os deu a conhecer ao mundo, e procuramos abrigo na frente do palco Optimus, que protegia as primeiras filas da chuva e do vento. As atenções repartiam-se entre imagens do palco ao lado, e os trabalhos que tentavam dar as melhores condições para todos apanharmos a boleia dos Death Cab For Cutie.

Mas se “cá em baixo” se viam alguns trabalhos para secar o palco, continuava a ser muito estranha (para não dizer inexplicável) a abertura na cobertura que deixava entrar muita água, que dois esforçados trabalhadores tentavam continuamente remover, como quem tenta tirar, a balde, água de um barco a afundar-se. Cerca de 15 minutos antes da hora prevista para o início do concerto de estreia dos norte-americanos em Portugal, subiram à estrutura duas pessoas para, finalmente, tentar fechar o palco. Mas o vento, a chuva, o peso da cobertura e o pouco tempo jogavam contra aquele esforço, e quase uma hora depois do início dos trabalhos ainda não havia condições para montar o set dos Death Cab for Cutie, sendo anunciado o cancelamento do concerto e gerando um grande coro de assobios e protestos por parte dos muitos que agora aguentavam a intempérie em frente ao palco Optimus. Foi uma situação muito estranha, aparentemente sem grande explicação, a que se viveu no final da tarde de sábado, e que manchou irremediavelmente aquela que tinha sido uma bela organização até à data.

Depois do cancelamento dos Death Cab for Cutie, partimos em busca de algo para preencher o vazio que a inexplicável ausência dos norte-americanos tinha deixado, e chegamos ao palco ATP onde o som fantasioso do shoegaze dos suecos I Break Horses não convencia, e havia um misto de apatia e desilusão no ar. Viagem até à tenda onde ontem brilharam os Beach House, para mais um balde de água fria, com o cancelamento de James Ferraro, que segundo o que foi adiantado, estava em paradeiro desconhecido (!?!?) à hora do concerto.

Com o corpo encharcado e o ânimo em baixo, uma pequena multidão concentrou-se na praça da alimentação para dar algum conforto ao estômago, e ver o jogo de Portugal no ecrã (não muito) gigante ali montado. Golo da Alemanha… mais um soco no estômago e nem as bifanas nem o Ronaldo salvavam o dia.

Após tantas adversidades, os deuses deram uma abébia aos festivaleiros, e a chuva finalmente parou. Embora agora circular em algumas zonas do parque fosse uma tarefa que quereria um equilíbrio assinalável, chegamos ao palco Primavera, onde os The Afghan Whigs estavam a salvar o festival de um marasmo que parecia inevitável. Bola de espelhos no alto do palco e estava aberto o baile. Como se fossem uma banda jovem a tocar num baile de finalistas dos filmes manhosos, os norte-americanos queriam que todos os olhares se dirigissem para eles, e fizeram bem por isso! Greg Dull, o frontman deste grupo, puxou bem pela sua voz rouca e possante, e tal como as bandas dos bailes os The Afghan Whigs foram a todas, visitando o pop, o rock, o soul e o indie, sempre com uma presença de palco impecável. “See and don’t see”, interpretada com muito flow trouxe a chuva de volta e enviou-nos para outro palco em busca de mais salvadores do dilúvio.

Encontramos abrigo no navio onde os The Weeknd seguiam viagem rumo ao porto seguro da batida envolvente de “The morning”. Um baixo bem pesado marcava o ritmo a que os corpos balançavam enquanto Abel Tesfaye resgatava toda a atenção do público, disposto a esquecer as contrariedades e a aproveitar as últimas boas vibrações do festival.

23h e ainda não era desta que o palco Optimus recebeu o primeiro concerto em formato “normal”. O aparente amadorismo que levou a esta anormal situação era tema de conversa por todo o recinto, e dedicavam-se palavras pouco simpáticas à organização, mas quando às 23.15 os Kings of Convenience fizeram a sua entrada em palco, foram recebidos com carinho por parte de uma multidão impaciente.

Encontramos dois noruegueses orgulhosos da sua versão de Simon and Garfunkel, e ficamos por ali a absorver as opiniões de dois profundos conhecedores da banda, que cativou tudo e todos desde os primeiros acordes. Por momentos  estávamos de novo nos anos 60, no melhor que esse tempo tinha para dar, e quando o duo lançou “Toxic Girl” (arrancado a ferros depois de Erlend Øye não ter conseguido concentrar-se para tocar um tema mais intimista devido ao ruído que vinha do palco ATP) o parque da cidade transformou-se num pequeno espaço onde todos em comunhão deixaram os sonhos flutuar ao som das guitarras de Øye e Eirik Glambek Bøe. Sempre bem-dispostos e a saber comunicar com um público rendido à qualidade dos nórdicos, os Kings of Convenience não pararam de oferecer boa música a um país que os acolhe tão bem (palavras da banda). Quebrando o formato tradicional da banda, entraram em palco três músicos que deram um colorido ainda mais especial ao palco e iniciou um concerto novo de um grupo que se soube reinventar. Com temas mais mexidos os Kings of Convenience trouxeram um swing incrível à plateia. Foi com um olhar de miúdo desconfiado que Erlend Øye mirou a mescla de nacionalidades do primavera, tirou o casaco, pousou pela primeira vez a sua guitarra e decidiu brindar-nos com “I’d rather dance with you”, num final fantástico para o grande concerto do último dia do Primavera. Mas ninguém queria ver os noruegueses partir, e a massa humana chamou-os de volta ao palco para um encore, e foi de novo no formato original que os Kings tiveram a consagração final, com Øye de bandeira nacional aos ombros, cantando as suas histórias doces regadas por melodias envolventes.

Nos palcos ATP e Club, as bandas jogavam em casa, e perante um público que estava ali para os ver, quer os Wavves como os Dirty Three sentiam o calor do povo português, que contrariou a famosa tendência para o pessimismo e deu ao festival uma nova vida. Enquanto muitos marcavam lugar para ver bem de perto os xx, o palco Primavera fechava com a actuação de Saint Etienne. Ao contrário dos M83, estes ingleses não conseguiram transformar o recinto numa pista de dança total, mas com certeza lograram roubar uns passos de dança ao mais profundo pé de chumbo. Num vestido branco bem brilhante, Sarah Cracknell ia emprestando voz às sonoridades disco 80′s bem ilustradas nas projecções que acompanharam todo o concerto. “Only love can break your heart” foi um bom exemplo da forma como a banda britânica mistura os sons das pistas de dança das 3 últimas décadas do século 20. Boas vibrações dos 70, um flow elegante dos 80 e restos de um euro dance dos 90 foram os sons que fizeram a festa em dose moderada no finalizar do palco Primavera.

Na recta final da passagem do Primavera pelo parque da cidade, cabia aos The xx a tarefa de fechar o principal palco do festival. A entrada, ao som dos gritos jovens das primeiras filas, fazia antecipar que o dia estava ganho para os britânicos, mesmo antes de arrancarem. “Islands”, a segunda escolha do alinhamento, levou metade da plateia a cantarolar baixinho “I am yours now” e deixou os corações mais sensíveis a bater mais forte. “Basic Space” voltou a forçar as pernas a acordar para dar mais uns impulsos de dança e trouxe as primeiras palmas compassadas do concerto. O som obscuro e sombrio dos xx continuava a fazer tremer as almas doridas dos muitos que encontram aqui quem dê voz (e corpo musical) aos mais íntimos sentimentos, numa perfeita mistura de letras  e melodias. Duas vozes experientes e bem colocadas, por baixo de um enorme x transparente deixaram sair o maior êxito da banda, “Cristalyzed”, num formato ainda mais lento e soturno que o habitual, e que lhe deu uma vida mais etérea que aquela que goza no álbum. Até ao final destaque para uma bela interpretação de “Shelter” e para os elogios às capacidades vocais do público do festival, misturados com um agradecimento pela dedicação de todos os que aguentaram a chuva e ficaram para viver uma hora e meia no mundo a preto e branco dos the xx.

“Intro” surgiu no final desta segunda apresentação dos the xx em Portugal para lançar uma bóia de salvamento a um concerto que se estava a afundar em temas novos, mas que nada trouxeram ao que se tinha visto até então. “Stars” fechou a passagem do jovem duo que promete continuar a colar os pedaços de corações partidos e cantar o amor misterioso por muito mais tempo.

Chegava assim ao final a passagem pelo parque da cidade da primeira edição do Optimus Primavera Sound. Um sucesso em quase todos os sentidos, não fossem as contrariedades trazidas pela chuva do último dia, que demoraram a ser solucionadas, mas que felizmente não estragaram um evento que regressará em 2013 à cidade invicta, para trazer mais dias da boa música que se faz pelo mundo. Até para o ano Primavera!

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