Prometheus

Trinta anos depois Ridley Scott regressa à ficção cientifica, género que ajudou a definir com duas obras maiores do cinema, Alien e Blade Runner. Prometheus foi várias vezes anunciado como sendo uma prequela da saga Alien, a verdade é que no final isso acabou por não se comprovar. Embora seja uma prequela indirecta, ou seja, a história não se cruza objectivamente, mas existem vários elementos a ligar os filmes, Prometheus acaba por ter várias características da saga Alien, situando-se entre o primeiro e o segundo Alien, a nível de ambiente e estilo.

Afastado da glória desde Black Hawk Down, Scott tentou afirmar-se várias vezes com apostas algo ao lado. Prometheus teve uma campanha de marketing algo diferente dos últimos filmes de Scott. Usando a estratégia de promover tudo sobre o filme, menos o filme em si, Prometheus atraiu a atenção de muitos curiosos que nunca se interessaram pela saga Alien. No fim de contas o dinheiro feito é que traduz o resultado ou não do filme.

Prometheus começa com uma sequência algo enigmática, de um estranho ser no planeta Terra. De seguida a narrativa segue de perto a história dos protagonistas Elizabeth Shaw (Noomi Rapace) e Charlie Holloway (Logan Marshall-Green), o acordar na nave “Prometheus” e a sua crença de que irão encontrar alienigenas. Enquanto os outros personagens vão sendo introduzidos, quase sempre através de esteréotipos, Scott aproveita para ir levantando o véu sobre a história. Temos uma pequena apareição de Peter Weyland através de holograma e uma ideia indefinida sobre o resultado positivo desta missão. Um pouco ao estilo do primeiro Alien, Scott apresenta-nos os seus personagens através de diálogos pouco interessantes, mas que revelam rapidamente a natureza de cada um deles.

David (Michael Fassbender) é dos personagens mais bem explorados ao longo de todo o filme. Embora seja cruel dizer que os personagens de Prometheus são fracos, não podemos dizer que existam bons personagens. David é talvez o único personagem em destaque, fazendo esquecer o andróide Bishop dos filmes anteriores. Quanto a Elisabeth Shaw também é injusto dizer que é uma personagem fraca. Porém, fica muito aquém da mitica Ripley, possivelmente porque de Noomi Rapace para Sigourney Weaver ainda vai muito. Shaw parece uma Ripley falsa, muito mais fraca do que a “original”.

Os primeiros 45 minutos de filme são carregados de um suspense atípico. Não existem momentos de grande suspense nem sequências de acção, mas a forma como o realizador conduz a narrativa leva-nos a ficar inquietos durante esse tempo. Nota positiva para esta sensação inquietante e pela forma como Ridley Scott consegue manter o espectador interessado. A partir daí o filme só piora. David continua a explorar-se a si mesmo e a fazer evoluir a história, sendo o ponto positivo de maior destaque de todo o filme, mas os outros personagens parecem algo vazios e a história de criação do universo e origem do planeta terra parece não pegar.

Prometheus não tem nada que seja objectivamente mau. A realização está bem conseguida, como seria de esperar com um realizador com 40 anos de carreira; os actores estão bem, embora existam personagens mal explorados, como é o caso de Meredith Vickers (Charlize Theron); a história consegue ser interessante, embora não seja criativa nem acrescente muito ao universo de Alien. O maior problema de Prometheus prende-se com aquilo que revela. O Space Jockey era uma figura enigmática no mundo de Alien e a forma como “levantaram” o véu à figura leva tudo o que pensámos a cair um pouco no ridiculo. é interessante a forma como é explicada a origem dos seres humanos, como o Space Jockey está directamente ligado com isso. Mas por outro lado torna-se uma figura quase banal, sem qualquer carisma.

Pontos altamente negativos do filme: Sequência de luta entre Charlie Holloway-mutante e os restantes membros da tripulação; violência gratuita sem qualquer interesse; cena de luta final entre o Space Jockey e o polvo (?!). Prometheus não é um mau filme, é interessante e bem conduzido, com bons planos e um Michael Fassbender em excelente forma. Para um fã do Alien ou não, Prometheus consegue ser um filme bem conseguido de sci-fi, no meio da imundice que tem sido esse género nos últimos anos. Não é, porém, um filme que espante, nem que consiga atrair mais fãs à saga Alien. Esperava-se mais de Ridley Scott, mas também se esperava pior. Prometheus é competente, com alguns momentos interessantes, outros algo fracos, frutos de um excessivo uso de cenas comerciais.

É incrivel como ao fim de trinta e muitos anos, Alien continua a ser uma obra imensa, um thriller espantoso; que Aliens seja um filme de acção comercial excelentemente bem feito; e que Alien 3 seja um filme negro e perturbador tão bem elaborado. Prometheus dá mais brilho a esta trilogia, ficando muito aquém de qualquer filme da saga (excepto o último Alien). Contudo,  acaba por ser um filme interessante.

Texto por João Miguel Fernandes

Arte-Factos

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