The Mars Volta no Coliseu de Lisboa (14/06/2012)

Texto por Gonçalo Trindade

Parece que o país está mesmo em crise. Os The Mars Volta, banda que em 2008 levou Paredes de Coura à loucura, teve um meio Coliseu à sua espera. Bilhetes a trinta euros, uma banda que não tem a fama de antes (o novo disco, Noctourniquet, não foi bem-recebido), e o que se viu na sala foi um culto que não tem a força de antigamente; ainda que, como se costuma dizer, eram “poucos, mas bons”.

A noite começou de forma curiosa, com uma primeira parte das Le Butcherettes que primeiro foi estranha, depois bizarra, depois estranha outra vez, depois ficou boa, e depois voltou a ficar estranha mas já a entranhar. Duas raparigas mexicanas, uma ao teclado/voz/guitarra e uma à bateria, mais Omar dos Mars Volta ao baixo, fazendo um rock cru e intenso que tem na sua vocalista o grande destaque. Teri Gender grita ora ao microfone ora fora dele, tem um olhar possuído com olhos que por vezes parecem estar em lágrimas, e às tantas agarra-nos pelo colarinho e só nos volta a largar no fim. Já tocaram em Paredes, e diz-se que lá comia fruta e depois cuspia-a; cá não chegou a tanto, mas não esteve muito longe. Foi, ao início, difícil de empatizar com aquela presença em palco, tão caricata e estranha, mas foi inevitável que às tantas o público não começasse a respeitar aquela jovem de aspecto frágil que, do nada, fica em modo animalesco. O rock que fazem é simples, directo (“Estás a gostar das Pega Monstro mexicanas?”, perguntou uma amiga minha), e é quando Teri pega na guitarra que tudo ganha uma dimensão diferente, por vezes impressionante. Canções como “The Leibniz Language” soam ao vivo muito diferentes do que imaginávamos ao ouvir em disco… e isso não é mau. Primeiro estranha-se, depois entranha-se.

Tocaram perto de uma hora, e não muito tempo depois chegam os The Mars Volta, com uma entrada francamente épica ao som de “A Fistful of Dollars”, de Ennio Morricone. Sentiu-se no ar a devoção, o sentimento de realização de um público que sentiu que a noite estava feita mal entraram em palco Omar e Cedric (com a afro do costume, claro, e logo de início a atirar-se ao chão e a deslizar pelo palco). Entra “The Whip Hand”, do mais recente disco, e sentiu-se de imediato a qualidade de uma banda que, quer se goste quer não (dito de alguém que não é fã), sabe muito bem o que faz. Foi bonito ver a forma como as músicas mais recentes (que compuseram literalmente toda a primeira metade do concerto) foram bem-recebidas por um público que sabia as letras, por vezes se atrevia a entoar um ou outro riff, e que ao início pareceu verdadeiramente conquistado com o que estava a ver. Omar é genial no que faz, e Cedric ao início desafina mas depois entra no ritmo certo, trespassando o concerto com uma energia impressionante (faz de tudo desde correr pelo palco até enfiar uma setlist dentro das cuecas).

Claro que, com a primeira metade toda de material novo, eventualmente o entusiasmo começou a desaparecer. “The Malkin Jewel”, por exemplo, resultou muito bem, mas via-se bem que o público estava ali não tanto pelas músicas novas, mas mais pelos clássicos. O entusiasmo começou a perder-se ainda mais quando a meio do espectáculo a banda faz um jam que parece durar uns bons quinze minutos; ao início foi interessante, mas às tantas o aborrecimento instalou-se. E é depois de Cedric agradecer ao público o seu “attention span” que os clássicos, finalmente, começam a chegar. “Empty Vessels Make the Loudest Sound” foi recebida com gritos e mãos no ar, tendo sido cantada a uma única voz; algo que se pode dizer também de “Molochwalker” (com metade do público a saltar, claro), e a mais radio-friendly mas bonita “The Widow”. Foi, desde logo, curiosa a forma como a banda tocava de forma tão directa e sem grande experimentação os temas antigos; são conhecidos pelos seus jams, pela forma como ao vivo mudam as músicas, mas isso viu-se mais nas de “Noctourniquet” que nos clássicos.

“Goliath”, potente mas não tanto quanto se poderia esperar (abrandaram um pouco a música), terminou em grande um concerto de dez músicas que, ainda que longe de grandioso e talvez um pouco abaixo das expectativas dos mais devotos, mostrou uma banda de culto ainda em boa forma. Pouco mais de hora-e-meia de espectáculo, com um alinhamento onde muita coisa ficou de fora, mas que serviu na perfeição para mostrar o valor que a banda possui: quer se goste quer não, não há muita coisa igual a isto. E, o que eles fazem, ainda fazem bem.

No final de “Goliath” a banda sai do palco, com uma despedida rápida, e o público mantém-se no mesmo sítio, gritando e batendo o pé, desesperando por um encore com as luzes já acesas; mas, infelizmente, os Mars Volta não voltaram.

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