Estrada de Palha

Esta é a segunda longa-metragem de Rodrigo Areias como realizador e é também um dos filmes nacionais mais interessantes dos últimos tempos. Ainda assim, não está isento daqueles erros que infelizmente parecem ser muito comuns em filmes portugueses. Tem uma ideia e um conceito novos que o destacam do que se tem vindo a fazer por cá, mas podia melhorar bastante.

A acção situa-se no final da primeira década do século XX, numa altura em que Portugal era dominado pela corrupção. A personagem principal é um pastor que volta ao seu país, 10 anos depois de o ter abandonado, para vingar a morte do seu irmão e salvar o que resta da família de um país em aparente queda livre. Consigo leva o livro Desobediência Civil, de Henry David Thoreau, que está a traduzir para o fazer chegar ao seu povo. Acaba por ter, sem o ser, muitas características de um western com dois pontos de foco principais: a vingança e a corrupção.

Houve uma clara preocupação em não abordar simplesmente a situação do país, sem qualquer pretexto. A história de Alberto Carneiro, o protagonista, situa o espectador no tempo e é usada para passar uma mensagem maior. Ainda assim, parece que nenhum dos planos realmente avança de uma forma positiva. Por inúmeras vezes são colocadas no ecrã passagens do livro de Henry David Thoreau, sendo que facilmente se pode fazer a relação com a situação que se vivia naquele momento, mas era preciso bem mais para o filme fazer sentido. As referências ao livro não chegam. A história do protagonista, em si, também é fraca, sendo pouco mais do que um fora-da-lei que só queria recuperar as ovelhas que o irmão perdeu. Não soa, nem é, muito interessante.

Ainda que a personagem de Alberto esteja até bem representada por Vítor Correia, sendo um protagonista forte, algo que parece ser uma grande lacuna na maior parte dos filmes portugueses, este tem sempre uma atitude implacável, típica de um homem que acha que perdeu a virgindade antes do pai. Seria interessante ver um pouco mais da personagem de Alberto Carneiro, mas não deixa de estar bem. As restantes personagens são vazias e/ou pouco interessantes, como é o caso do capitão da polícia, interpretado por Nuno Melo ou de Américo, outro fugitivo, sem qualquer explicação de porque está ali.

Os pontos mais fortes, e neste caso são mesmo óptimos, são a realização e a banda sonora. Na primeira, há planos fantásticos de paisagens alentejanas que, provavelmente captadas de outra formas, seriam banais. Há um óptimo trabalho neste aspecto e assim até se pode perdoar o tempo que por vezes se perde só a filmar o vazio. A acompanhar, a soberba banda sonora que The Legendary Tigerman e Rita Redshoes emprestam ao filme. Não é comum ver a perfeita harmonia entre imagem e som que se encontra neste filme, mesmo a nível internacional.

No final, ficamos com a ideia de que Estrada de Palha podia ser muito mais do que é. Tem uma premissa interessante, que se vai desenvolver mal e uma personagem principal igualmente promissora, que sofre com algumas limitações que lhe são impostas. A realização e a banda sonora estão num nível superior ao que é normal fazer-se em Portugal e só por si esse acaba por ser um ponto de grande interesse neste filme, ainda que não o único. Podia ser mais trabalhado a nível de argumento – mas é um bom filme, que não merece ser olhado com desconfiança apenas por ser “mais um filme português”.

Texto por Sandro Cantante

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