O cinema de Alejandro Jodorowsky

Antes de David Lynch havia Alejandro Jodorowsky, um cineasta Chileno com uma carreira curiosa.

Nascido no Chile, Jodorowsky desde cedo se interessou por cinema e histórias psicadélicas e macabras, cheias de simbolismos e temas religiosos. Conhecido também no ramo da psicologia, mais especificamente por ter desenvolvido uma tese à volta da noção de “Psicomagia”, Alejandro Jodorowsky saltou do Chile para Paris para ter as ferramentas necessárias para explorar a sua loucura.
Entre os seus filmes contam-se “El Topo”, “The Holy Mountain” e “Santa Sangre”. “El Topo” foi um sucesso de bilheteira tal que o próprio John Lennon decidiu comprar os direitos do filme para editá-lo em VHS, isto em 1970. Fruto desta admiração de Lennon por Jodowrosky, em 1973 o filme “The Holy Mountain” foi totalmente financiado por Lennon, num valor estimado em 1 milhão de dólares.
Mas os admiradores de Jodorowsky não se ficam por aqui. Foi ele que conduziu o casamento de Marilyn Manson com Dita Von Teese. Dennis Hopper, David Lynch e os Pink Floyd eram fãs acérrimos do seu trabalho. Diz-se que o próprio Peter Gabriel se inspirou em “El Topo” para criar a ideia base de “The Lamb Lies Down on Broadway”, álbum de Genesis.

Produzidos no Chile, os filmes de Jodorowsky rapidamente chamaram a atenção do mundo pelos seus temas macabros, juntando temas ocorrentes da religião com actores desfigurados, cenas nojentas, mas tudo combinado numa grande metáfora e reflexão sobre a vida, a morte e o demais que percorre o nosso subconsciente.
A maior característica que ressalta à vista nos filmes de Jodorowsky é a capacidade que o mesmo tem em criar uma narrativa irregular e pouco objectiva. Tudo funciona através de símbolos e mensagens, sendo por vezes levado a um exagero tal que tudo parece um emaranhado de situações sangrentas, sexuais e perturbadoras, existentes apenas para nos chocar. Mas o cinema de Jodorowsky vai além de tudo isto. Referenciado muitas vezes como “o louco”, até pelo próprio, Jodorowsky afirma que gosta de chocar o seu público e estudar a reacção das pessoas aos seus filmes. O tema da religião sempre o fascinou, sendo cartomante.
O cinema de Jodorowsky é um misto entre o que há de mais perturbador nos filmes de David Lynch, com os pesadelos sexuais de Pier Paolo Pasolini e muitas doses de LSD. Aliás, Jodorowsky sempre afirmou que gostava de dar ao espectador a sensação de que estava sob o efeito de LSD, sem estar na realidade.

“El Topo” é um filme marcante. Com relativo sucesso nos Estados Unidos, “El Topo” é um filme de culto que está um pouco perdido no tempo. Não fique porém o espectador banal de cinema curioso com esta referência, ver “El Topo”, nas palavras do próprio realizador, é um risco, já que afirma que “If you are great, El Topo is a great picture. If you are limited, El Topo is limited”. Preparem-se para ver coisas abstractas, sexuais, chocantes, macabras e totalmente aleatórias, mas preparem-se também para um magnifica reflexão sobre a sociedade e o desenvolvimento do ser humano.
Se “El Topo” é tudo isto então que dizer de “The Holy Mountain”, um filme totalmente levado ao extremo, com uma mensagem politica bastante forte e cenas chocantes.
“The Holy Mountain” conta-nos a história de um personagem tipo-Cristo, que caminha por uma terra perdida em busca da montanha sagrada. Pelo caminho conhece vários personagens perturbadoras e passa por muitas situações aterradoras.
Alejandro Jodorowsky não conhece limites. É também na banda desenhada que o cineasta explora a sua criatividade e insanidade. Considerado um louco por muitos, Jodorowsky é chamado por outros de visionário e verdadeiro artista.

Actualmente encontra-se a viver em Paris, com imensa vontade de voltar a realizar um filme, mas sem o apoio financeiro necessário. Como o próprio diz “é fácil conseguir muitos milhões de dólares para fazer um filme, mas para isso tenho que vender a alma. Se quiser ser um verdadeiro artista, um criador, alguém que realmente faz uma obra, uma poesia visual, aí já não consigo financiamento, porque ninguém dá apenas 1 milhão de euros para um filme, só se for um louco e é disso que preciso”.

Texto por João Miguel Fernandes

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