Milhões de Festa – 1º Dia (20/07/2012)

Texto por Cláudia Filipe / Fotos por Hugo Rodrigues

O Milhões é aquele festival que nos deixa de coração cheio e sorriso nos lábios. É aquele festival de onde saímos, deixando a promessa no ar que havemos de voltar no ano seguinte, com a mesma energia, vontade e secreto desejo de que o tempo pare algures no meio daquele fim de semana, ou que pelo menos se prolongue um bocadinho mais.  O Milhões é aquele festival onde fazemos esta promessa não só pela dose intensiva de boa música com que somos brindados, mas pelo convívio e ambiente, que é indiscritível e único. Que outro festival tem 4 palcos espalhados pela cidade, um numa piscina e outro com um excelente churrasco e muito bom vinho?

Ah pois, música.

No primeiro dia de recinto principal do festival deparámo-nos com os Joseph, ao pôr-do-sol numa missão de recepção. Num palco improvisado, com meia dúzia de folhas de jornais para suportar os pedais, captaram-nos a atenção com o post-metal que destilava dos amplificadores (e os La La La Ressonance que nos desculpem por terem sido preteridos). A banda vale cambrense que começa a ganhar terreno na disputa por um lugar ao sol, foi eficaz na hora de travar algum do público que caminhava para a porta do recinto.

Dado por terminado o concerto, hora de descer rapidamente em direcção ao palco Vice, já que estava prestes a começar a hora de Ricardo Remédio, primeiro a solo e depois com Löbo. RA, um dos projectos revelação deste ano, preparava-se para encher o palco e recriar o seu EP Rancor, mais uma vez reinventado. Esta capacidade de transfiguração é, aliás, uma das características de louvar deste projecto, cuja mutabilidade faz com que soe a novidade, mas o fio condutor é o mesmo, e acabamos sempre a viajar por lugares mais sombrios. Já os Löbo trouxeram novidades na bagagem, e, qual fénix das cinzas renascida, deram-nos uma boa chapada de doom. Não foram os problemas técnicos que se fizeram sentir que deixaram de nos abrir o apetite para mais do que possa vir. A garra continua lá e a vontade de a incutir nas composições, que cada vez soam mais sólidas e coesas, também.

Logo de seguida os Sensible Soccers foram surpreendentes, dando uma exibição com grande mestria. Foram em crescendo, começando timidamente, mas rapidamente alastrando magia junto dos presentes. Cuidado que eles vão longe…

Continuando sem fugir dos mundos electrónicos, os League, que inevitavelmente nos lembraram todas as outras bandas dançáveis do mesmo género (como Klaxons). Deu para abanar o pé e pouco mais, visto que a actuação rapidamente caiu na monotonia porque não havia nada de novo que nos  pudessem trazer. Ou então o nosso subsconsciente não conseguia evitar olhar para o relógio para contar os minutos que faltavam para a actuação dos grandes…

No palco Milhões aguardava-se com muita expectativa por Baroness. Com o polémico “Yellow & Green” para apresentar, a setlist não fugiu muito disso. Não que isto seja necessariamente mau, porque se há conclusão a tirar deste concerto é que o novo disco resulta muito bem ao vivo. Foi uma hora bem intensa, onde berrámos a plenos pulmões faixas como “Take My Bones Away”. Por se tratar do primeiro concerto por Portugal, ainda havia alguma esperança para ouvir mais regresso ao passado. Se as visitas a “Blue” foram mais frequentes (como com “A Horse Called Golgotha” ou “Jake Leg“, música que encerrou o concerto em jeito de encore), do “Red” só ouvimos a “Isak” e a “Grad“. E este é mesmo dos poucos pontos negativos (e que volto a frisar que não foi assim tão mau) que há a registar, porque este está inevitavelmente no top de concertos do Milhões 2012.

No palco Vice subia Holy Other, que nos fez voltar ao padrão electrónico que toldou este dia, e cuja cadência sonora abrandou o ritmo imposto por Baroness. Nada mais seria de esperar do que mais uma excelente actuação. O músico que se cobriu de negro, foi capaz de cobrir também a sua audiência com as suas vestes através da quantidade razoável de melancolia que impôs com as suas composições. Numa próxima visita, seria interessante ver este projecto à porta fechada, num espaço intimista, onde é bem possível que cresça ainda mais e surpreenda os sentimentos dos mais desprevenidos.

O Milhões de Festa 2011 viu nascer um dos projectos mais badalados dos últimos tempos. É impossível dissociar Throes + The Shine de festa. O último concerto do dia no Palco Milhões foi entregue à improvável fusão de dois projectos tão distintos e que entretanto já pôs “Rockuduro” cá fora. Dançou-se do início ao fim, subiu-se ao palco, lançaram-se confettis. É contagiante e ancas começam a abanar sem percebermos muito bem como. Kuiamos do início ao fim com os portuenses e teríamos alastrado pelo tempo que fosse preciso.

Para os resistentes, hora da after party no palco Vice. Os primeiros a actuar foram os Youthless, que de uma forma bem simples deram um animado concerto onde inclusivamente se ouviram covers de Talking Heads e Black Sabbath. Não é preciso muito: simpatia, ritmo e entrega parecem fazer a fórmula para um bom espectáculo.

A nossa noite acabou com a loucura de Meneo, munido de um Game Boy que disparava pregos por todo o lado, mas que não podia ter caído melhor no avançar da hora e no ambiente que estava quando subiu ao palco. Fez a festa, fez-nos regressar ao passado ao relembrar Daft Punk ou Alice Deejay e tudo soava bem. Mais uma aposta ganha a preencher este dia do cartaz.

Abandonamos o recinto de barriga cheia de boa música, sorrisos e muita diversão. Expectativas ainda mais altas para os dois dias que se seguiam.

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