Milhões de Festa – 2º dia (21/07/2012)

Texto por Cláudia Filipe / Fotos por Hugo Rodrigues

O segundo dia do Milhões de Festa começou com o calor abrasador que se fazia sentir na piscina, onde a água foi o ingrediente mais apetecível.

À hora de Gnod subirem ao palco do referido espaço, já por lá se encontrava uma quantidade bastante considerável de gente. No entanto, quem com expectativa aguardava pela actuação da banda acabou por ficar defraudado. O psicadelismo e a rispidez das guitarras deram lugar a um set mais electrónico e ambiental. Quase passavam despercebidos, mas dado o local e a hora, talvez tenham feito uma escolha inteligente para um início de tarde soalheiro, criando uma banda sonora interessante para acompanhar dois dedos de conversa e um mojito à beira da água.

Seguiram-se os portugueses Revengeance que partiram a loiça toda. Poucos segundos depois do início da actuação, já o espaço tinha virado campo de batalha e instalou-se o caos – tudo para a acompanhar a violência que emanava das colunas, destilada por um quinteto que se revela cada vez mais coeso em palco. Sabem o que estão a fazer e isso transparece para quem está de fora.

Hora de voltar a acalmar os ânimos e regressar ao mood “piscina e mojitos” com a dupla que se seguiu: Moullinex+Xinobi tomaram conta do palco para nos presentearem com uma eficaz escolha de músicas e que, infelizmente, tivemos de deixar a meio, para podermos atravessar Barcelos e assistir a uma das grandes surpresas do festival.

Unicornibot

Talvez tenha sido a escolha mais acertada de todas as que foram feitas durante aqueles três dias: ir ver Unicornibot ao palco Taina, o de entrada livre com deliciosos petiscos e vinho verde tinto igualmente espectacular. E de repente a curiosidade acabou por se transformar num dos melhores concertos do festival (só não digo “O”, porque houve Alt-J no dia seguinte, mas esse ponto ficará para o próximo artigo). Os espanhóis das máscaras maradas e improvisadas com papel de prata deram uma lição de descontrução sonora. As guitarras desenfreadas ecoavam de forma hipnotizante pelo espaço e temas como La Tercera Es La Segunda foram um hino para qualquer apreciador de boa música.

Com o final da tarde aproximava-se a hora de continuar a festa no recinto, entre a correria habitual do Palco Milhões para o Palco Vice porque este também é um festival de descoberta de bandas e projectos sempre habilmente escolhidos pela organização. No entanto, apesar desta segunda noite prometer, acabou por ser a mais fraca das três e a que menos mossa terá deixado.
Mas a noite havia de começar em alta, com uma grande dose de rock dada pelos Blues Pills, “a banda que tem gajos que eram de Radio Moscow”. Só que são muito mais que isso: a voz de Elin Larsson é quase hipnótica e viajamos no tempo até aos ritmos que as décadas de 60 e 70 nos ensinaram e que ainda hoje apreciamos. Soube bem e puseram a fasquia bem alta para quem quer que fosse que se seguisse.

Os espanhois Lüger, que abriram as hostes do palco Vice neste dia, corresponderam e deram um concerto igualmente interessante e cheio de um psicadelismo, ora arrastado, ora rasgado, mas sempre poderoso. Para os muitos que lá estavam e para quem a banda seria muito provavelmente desconhecida, ficou o agrado e a curiosidade para poder ir conhecer mais. Esta é banda para manter debaixo de olho e ter em atenção para todos os apreciadores do estilo.

El Perro del Mar

El Perro Del Mar, depois de uma actuação aparentemente agradável no Lux em Lisboa, rumou a Norte para se apresentar no Milhões de Festa num concerto que estava destinado a correr mal. Entre músicas que tiveram de ser começadas do início e um público que começou a desligar progressivamente do que se estava a passar em palco, tudo aconteceu para que deste concerto não restassem grandes memórias. Sarah Assbring ressentiu-se também e a actuação seguiu sempre em declínio, o que foi uma pena pois o projecto é interessante em disco e passível de ter sido apreciado, noutra conjectura, pelo tipo de público que por ali andava.

Prizhorn Dance School vieram melhorar novamente a qualidade das actuações. Nada de novo, mas ao mesmo tempo uma surpresa interessante para quem ali se deslocou para conhecer e onde o rei foi sem dúvida o baixo, peça fulcral para a jarda sonora que se passou no palco Vice. Melodias simples, eficazes e missão cumprida.

É impossível falar no concerto de Connan Mockasin sem falar na voz, o elo mais forte do colectivo e o elemento mais apelativo. Unanimemente levantavam-se vozes a louvar o que se estava a passar em palco e não deverão ser poucos os que elegem este como uma das actuações mais memoráveis deste festival. Este concerto merecia ter sido visto de perto para que cada pormenor que jorrava dali pudesse ser dignamente absorvido e apreciado. Conan Mockasin foi uma agradável viagem, que puxou por todos os bocadinhos que temos em nós em ânsia de se libertarem, através de um frontman que de tudo fez para agarrar o público, rapidamente rendido.

Weeedeater

Mas maiores foram os Weedeater a fechar o palco Milhões em grande estilo, dando aquele que provavelmente foi o concerto mais pesado desta edição do festival, através da grosseira voz do vocalista, da portentosa bateria arrastada e bem executada como o doom pede, dos riffs de guitarra bem marcada ou do baixo que ia fazendo o coração saltar do peito. Weedeater é para ouvir bem alto e bastaram os primeiros riffs para que a cabeça se começasse a abanar desenfreadamente ao som dos ruídosos sons de guitarra que encheram o recinto. Fez pena vê-los deixar o palco tão abruptamente porque teríamos ficado ali em todo o ritual de headbanging por mais quanto tempo fosse necessário. Estava a saber demasiado bem.

No palco Vice prosseguiu a festa com Ghunagangh, que a pouco ou nada soube depois da chapada dada por Weedeater muito pouco tempo antes. A mente ainda estava formatada para um bom doom a la Bongzilla, por isso ganhámos fôlego e aguardámos por Publicist. Valeu a pena a espera por um electrónico bem possante, que deixou os resistentes a dançar até altas horas da manhã.

Terminado que estava para nós mais um dia de Milhões, restava-nos descansar para começar a preparar um último dia de festival, que havia de encerrar com chave de ouro a edição de 2012.

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