Milhões de Festa – 3º dia (22/07/2012)

Texto por Cláudia Filipe / Fotos por Hugo Rodrigues

O último dia do Milhões começou com alguma nostalgia e enorme expectativa. O fim estava prestes a chegar, mas vinha recheado de grandes nomes nacionais e internacionais que prometiam tornar este dia memorável. E foi isso que acabou por acontecer.

Mais uma tarde soalheira na piscina, toldada pelo calor que se fazia sentir em Barcelos. Coube a Grup Ses Beats inaugurar a última série de actuações neste palco. Os ritmos árabes que escolheram passar acabaram por preencher o espaço e, apesar da actuação ter passado algo despercebida, ainda arrancou alguns passos de dança aos banhistas e criou um ambiente bastante simpático. Seguiram-se os Naytronix, que escolheram apresentar-se em palco de fita laranja na cabeça, qual Daniel San dos tempos modernos, bem a condizer com os ritmos frescos do funk que trouxeram para pôs alguns pés na piscina a bater. Foi uma actuação que começou forte e interessante, no entanto a ideia que predominou no final foi “mais do mesmo”.

Moon Duo

Mas se havia um motivo forte para estarmos todos de volta do palco, esse motivo foi Moon Duo. Com Mazes na bagagem para apresentar, a dupla deu espectáculo, ou não fosse o espaço que escolhemos para assistir a este concerto ter-se tornado progressivamente mais apertado. Foram bastante hábeis em conseguir puxar o público até si, através da descarga psicadélica tão deliciosa e contagiante que descarregavam. Com este concerto, ganharam com toda a certeza o prémio piscina 2012.

Abandonamos a piscina para nos prepararmos para a correria habitual do Palco Milhões para o Palco Vice no recinto, e logo num dia como o de hoje onde era crucial ver tudo, dado o especial toque de requinte do alinhamento. Os primeiros a subir ao palco foram os Al-Madar que nos brindaram com uma sessão muito digna de final de tarde cheia de ritmos árabes. Basta dizer que a banda tem na sua formação alguns membros de Secret Chiefs 3 para percebermos o nível de harmoniosa fusão sonora de que estamos a falar. Soube muito bem o pequeno momento Músicas Do Mundo.

Do outro lado do recinto, no palco Vice, dava-se início ao concerto de uma das mais carismáticas bandas da actualidade. Os Riding Pânico, já presença habitual no festival, não sabem dar maus concertos e esta actuação foi mais uma prova disso. Com BB ao comando da bateria e Fábio (Men Eater) a dar uma ajuda extra na guitarra, deram mais uma actuação digna de causar lesões em pescoços menos preparados para o headbang. Pelo meio ainda entrou em palco Filho da Mãe, que tomou as rédeas de mais uma guitarra e que juntamente com o colectivo nos brindaram com um dos momentos mais altos e emotivos de todo o festival: a “Running Kids” foi um estrondoso murro no peito.

L’Enfance Rouge

Os L’Enfance Rouge, prata da casa Amplificasom, já tiveram a honra de ser considerados uma das melhores bandas da europa pelo próprio Mike Patton e pelo Thurston Moore. O concerto dos mesmos não deixa margem para perguntar porquê. Além das óbvias influências dos dois músicos citados nas suas composições, a banda, neste seu regresso a Portugal, deu mais um bom concerto, que em nada ficou a dever ao que assistimos na edição de 2011 do Amplifest. Foi uma parede intensa de som, com poucas (e muito curtas) paragens entre músicas, o que tornou a actuação bastante intensa.

A segunda banda nacional da noite foram os já incontornáveis Memória de Peixe. Quando penso neste momento, abre-se um sorriso face ao fresco, delicioso e viciante som dos loops da guitarra de Miguel Nicolau, acompanhado do não menos enorme Nuno Oliveira na bateria. A química entre a dupla é algo de assustador. São excelentes músicos com a capacidade de nos surpreender. Felizmente, tiveram bastante público para os receber e aplaudir. Dançámos e saltámos ao som das contagiantes “Estrela Morena” ou “Fishtank“. Pelo palco passaram ainda alguns convidados, que colaboram também no disco de estreia, como Da Chick ou Ed Rocha (Best Youth).

Se a noite já se preparava para tomar proporções épicas, a escala rebentou com a actuação de Alt-J, os novos meninos bonitos da pop britânica. De terras de Sua Majestade têm chegado projectos interessantes e renovadores e o disco de estreia do grupo é prova disso. “An Awesome Wave” é um dos lançamentos do ano, mas ao vivo ganhou proporções apoteóticas. Concerto do festival. Só faltou cair uma lágrima, mas esteve muito perto por causa da “Matilda“.

Alt-J

E se pensávamos que o fenómenos que já se faz sentir lá fora estava, para já, bastante discreto em Portugal, a verdade é que faixas com “Tessellate” ou “Breezeblocks” foram entoadas do princípio ao fim. Foi arrepiante e, uma semana depois, os efeitos daquela electrónica tão doce ainda se fazem sentir. A palavra “perfeição” continua como top of mind para descrever o que aconteceu durante este concerto.

E as expectativas desta noite não estavam só elevadas para Alt-J. Os Black Bombaim são donos de outro dos lançamentos deste ano, o “Titans” é uma monstruosidade. Mas para esta noite estava preparado algo especial: iam actuar lado a lado com GNOD, para um concerto único em que as duas bandas se uniriam numa só. E que os deuses do rock me perdoem, mas as expectativas para estes Black Gnod saíram goradas. O início demorou a desenvolver, o clímax tardava em chegar. E não por culpa dos nossos Bombaim, que põe tudo o que têm naquilo que fazem, mas mais pela parte Gnod, que esteve visivelmente desinspirada nas diversas actuações que fizeram no festival.
Apesar do concerto ter ido em crescendo e ter acabado muito, mas muito melhor do que começou, tendo atingido a certa altura níveis de intensidade incríveis, gostávamos mais de ter visto um concerto de Black Bombaim a solo, que é sempre em grande. Ainda por cima, andava pelo público o Maior, que até canta com eles no “Titans” e tudo…

Red Fang

O Palco Milhões iluminava-se pela última vez em 2012. A missão de o encerrar coube a Red Fang, os stoners americanos, que tinham uma plateia bem recheada à sua espera. Depois de uma boa primeira parte no concerto de Mastodon em Janeiro passado, esperava-se algo exponencialmente mais bruto e intenso. E foi isso que acabou de acontecer: foi um grande concerto de rock, cheio de festa onde ora dançámos (o corpo ainda se ressente do momento “Prehistoric Dog“), ora fechámos os olhos de punho no ar a apreciar riffs mais arrastados (e se foi assombrosa a “Into the Eye“).

Red Fang é para se ouvir bem alto e para acompanhar umas valentes horas de condução numa estrada algures no meio do deserto. Ou isso ou (muita) cerveja. Concluindo, encerraram com chave de ouro, mostrando porque é que merecem estar nas bocas do mundo.

Felizmente, ainda conseguimos ter forças para nos despedirmos em grande do Milhões. No palco Vice, a Discotexas Band ia dando show, com a carismática e enérgica Da Chick ao comando. Cumpriram a missão de pôr o público a dançar com uma actuação muito funkish e extremamente bem executada, ou não fossem todos excelentes músicos.

Resta-nos dizer até já e começar a contar os dias até à próxima edição do melhor festival de Verão nacional. Deixamos o recinto com uma mala cheia de sorrisos e memórias de um fim de semana em cheio, com horas de boa música envolta num ambiente que, infelizmente, já muito raramente conseguimos encontrar nos dias que correm. Obrigada Milhões, obrigada Lovers por estes 3 dias que havemos de querer reviver o mais cedo possível. Até para o ano Barcelos, obrigada por seres tão acolhedora e bonita.

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