Entrevista a Tio Rex

Tio Rex é o pseudónimo de Miguel Reis, um jovem de Setúbal que há uns anos decidiu pegar na guitarra e aprender a tocá-la e a cantar. O resultado dessa auto-aprendizagem e das suas experiências de vida materializou-se num EP, que é agora lançado. Esse EP, produzido por Hugo Martins (Shishio no mundo do Dubstep) é influenciado por vários cantautores de topo, o que torna quase impossível não sentirmos aquele toque de City and Colour ou Seu Jorge pelo meio. Fiquem a conhecer melhor este jovem músico que promete dar que falar num futuro próximo.

1. De onde vem o nome “Tio Rex”?
Por um lado, está directamente associado ao meu nome, mas peca por eu não ter sobrinhos. Originalmente nasceu de uma brincadeira entre mim e uma pessoa.

2. Como é que te iniciaste na música? Aprendeste a tocar sozinho ou tiveste formação?
Tanto a tocar como a cantar, bem ou mal, aprendi sozinho. Aprendi a tocar na guitarra clássica do pai de uma namorada, sendo que a guitarra começou a passar mais tempo em minha casa do que na dela, tal foi o vício! Na altura (2007), e após descobrir os básicos, só me dava mesmo gozo tocar o que ouvia, então forcei-me a aprender a ler tabulaturas na internet para poder tocar Iron & Wine (Sam Beam foi um dos meus professores). A minha primeira guitarra foi-me oferecida já em 2010 por um casal que conheci na Madeira e, que acabaram por ser a minha família enquanto lá estive. Entretanto eles voltaram à África do Sul e deixaram-me a guitarra.

3. Onde vais buscar as tuas influências?
Os meus pais ouviam, quando era miúdo, aquilo que hoje considero algumas das minhas maiores influências como Leonard Cohen, Caetano Veloso, Simon & Garfunkel, Bob Dylan, Zeca Afonso… Só lhes tenho a agradecer pelo bom gosto e por me terem afastado dos anos negros que foram os 90. Ao nível do que “descobri” por mim mesmo, e após uns bons anos de peso, que ainda me ajuda a relaxar às vezes, o folk e o country sempre foram estilos predominantes no que toca àquilo que me transmite emoções mais puras e fortes musicalmente. Vivo um pouco no passado quanto aos artistas desses géneros, como é o caso de Johnny Cash que descobri no YouTube com 15 anos, mas a nível contemporâneo os deuses da minha religião são: M. Ward, Conor Oberst, Sam Beam, Gillian Welch e a parelha norueguesa de Kings of Convenience.

4. Sendo que tocas guitarra e cantas, consideras legitimas as comparações feitas com City and Colour, Seu Jorge e Bon Iver?

Percebo que seja normal que quem ouça um trabalho novo o tente associar a coisas que já existem. E claro, se associam as minhas músicas a artistas desse calibre só posso levar isso como um factor positivo.

Creio que numa era em que somos constantemente bombardeados com informação e o acesso à mesma está bastante facilitado, seria inconcebível não notar influências do que gosto no que faço, contudo, tento olhar para o espelho e ver uma pessoa que esgravata nos seus próprios sentimentos para tentar escrever e compor algo original.

5. Como foi a experiência de criar este EP? Era algo que tinhas em mente há muito tempo?
A experiência em si foi uma das coisas mais gratificantes que já fiz na vida. Considero ser o mais próximo que estive de mim mesmo e o trabalho que fiz com o maior prazer e em que dei mais de mim.

Não foi planeado e creio que isso funciona a favor do ambiente que tentei dar aquelas 6 músicas. De certa forma a luz verde surgiu, já tendo as músicas escritas, quando um dos meus melhores amigos, que é produtor, o Hugo Martins, me incentivou a gravá-las. Após a entrega de uma carta de rescisão de contrato e de 11 dias de reclusão no Algarve, fizemos o EP que queríamos fazer, como o queríamos fazer.

6. Como é que abordas a criação musical? Do que se trata este EP?
Escrevo sobre mim. Sobre a minha vida, sobre o que me toca, sobre o que me faz comichão, sobre o que está errado perante os meus humildes padrões.

As músicas do EP foram escritas por necessidade. Na altura estava a trabalhar na recepção de um hotel em Lisboa e no turno das 23:30 às 08:00, onde as luzes parecem velas, as ruas estão desertas, tens 150 pessoas a dormir (ou não) nos pisos acima de ti e não vês ninguém passar entre as 03:00 e as 06:00, estás destinado a fazer algo mais que “trabalhar”.

Nessas horas propensas à depressão tornou-se quase mandatário descarregar os meus sentimentos perante um acontecimento que se deu na minha vida, e é sobre isso que o EP se debruça. Sobre a constante mutação e evolução de sensações pelas quais passei na altura, dada a realidade em que me encontrava. Pode dizer-se portanto que é um trabalho conceptual.

7 . Como tem corrido a divulgação do EP? Sentes que está a ser bem recebido?
De uma maneira geral a resposta tem sido bastante positiva! Se por um lado não tenho os conhecimentos suficientes do meio “musical/artístico” para saber com 100% de certezas quais os próximos passos a dar, o facto de termos disponibilizado o EP para download gratuito fez com que o alcance à partida já tenha sido mais que amigos e família.

Ainda assim, dá-me alento saber que os meus amigos e família gostaram bastante do resultado de todo o trabalho feito por mim e pelo Hugo, o que só me dá forças para o que estará para vir (brevemente)…

Tanto ao nível de apoio nas decisões que tomei, como na ajuda na promoção do projecto, ambos se revelaram parte daquilo a que hoje posso chamar Tio Rex.

8. Como vês o panorama cultural em Portugal? nomeadamente na área musical?
Essa é uma pergunta que na minha opinião se responde facilmente com meia dúzia de nomes: Samuel Úria, Rodrigo Leão, Dead Combo, Filho da Mãe e, como não podia deixar de referir, a banda responsável pela quantidade absurda de pancada que apanhei em concertos, os More Than a Thousand (o orgulho de peso Português).

Pegando nestes exemplos, posso afirmar que, nos diversos géneros associados às artistas/bandas que referi, Portugal tem mais qualidade que quase tudo o que importamos. Na minha opinião falta é a parte que ultrapassa o músico em si e se prende com ministérios e governos.

9. Se pudesses escolher um artista para tocar contigo quem seria?

Sairia ofuscadíssimo da brincadeira e se o homem é capaz de me fazer chorar a tocar ao vivo a 30 metros de distância de onde eu estava sentado na plateia acho que, ao lado dele, teria um blackout, mas ainda assim: M. Ward.

10. Planos para o futuro?
Já comecei a escrever o próximo EP.

O EP de estreia de Tio Rex pode ser descarregado gratuitamente aqui e podem ver todas as novidades relativas a este projecto aqui.

Entrevista por João Miguel Fernandes

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