Christopher Nolan – Mestre da Mente

Christopher Nolan é já um dos grandes realizadores da sua geração. Quando lhe olhamos para o currículo, podemos encaixar quase todas as suas criações no campo das obrigatórias para qualquer dito apreciador da sétima arte. O dom que lhe é intrínseco já lhe permitiu realizar obras que ficarão para a história do cinema: tornou-se mestre em envolver os espectadores em toda uma rede de mind games. Plot twists e outras manipulações no enredo prometem mexer com a mente de qualquer um.

Filho de um copy e de uma hospedeira, cedo lhe despertou o interesse para o mundo do cinema, após descobrir a Super 8 do pai com apenas sete anos, com a qual se entretinha a filmar os seus brinquedos.

Com apenas 19 anos estreou-se nas curta metragens, tendo a primeira sido Tarantella, exibida em 1989 no Image Union, um espaço para filmes independentes exibido no PBS. As duas curtas que se seguiram haviam de ser o motor de arranque para dois enormes filmes: Lacerny (1996) foi exibida no Festival de Cinema de Cambridge e a história seria desenvolvida posteriormente em Following. É considerada uma das curtas mais bem produzidas dos últimos tempos. A sua terceira (e última) é, talvez, a mais importante. Doodlebug (1997) mostra a história de um homem que persegue furiosamente um insecto pela casa. O filme é um thriller psicológico intenso: apesar de ter apenas 3 minutos, mergulha num drama imenso ao acompanhar-mos o desespero da personagem à medida que o tempo corre. Há quem defenda que Inception vem beber a esta curta.

A primeira longa metragem de Nolan foi o já referido Following, em 1998, filmado com um budget extremamente reduzido e com a preciosa ajuda dos colegas de faculdade da University College London. Aliás, o actor principal é, mais uma vez, Jeremy Theobald, que já havia sido o protagonista tanto de Lacerny como de Doodlebug. Este filme começa a aprofundar a tal capacidade de mexer com a mente que o realizador tem, e conta a história de um jovem escritor desempregado que começa a perseguir estranhos nas ruas de Londres em busca de inspiração para a sua próxima obra. No entanto, um dia perde controlo da distância e acaba envolvido no mundo do crime. Following, à semelhança de outros filmes de Nolan, é apresentado numa ordem não cronológica. Foi também aclamado pela crítica, especialmente pela capacidade de criar algo tão complexo com um orçamento tão reduzido.

Em 2000 estaria a realizar um dos melhores filmes de sempre, que catapultou Nolan directamente para o estatuto de culto. O perturbador thriller Memento conta a história de um homem que ficou incapaz de reter memórias de curto-prazo desde um ataque de que foi alvo e que vitimou a sua mulher. Durante o desenrolar da acção, assistimos à sua luta para encontrar o assassino e vingar a pessoa que mais amava. Para se conseguir lembrar e construir o seu caminho, vai guardando as pistas em fotografias, com pequenas notas. A história é apresentada em duas vias: uma, a preto e branco, mostra os acontecimentos ordenados cronologicamente. A segunda, a cores, relata-os na ordem inversa, até que ambas se cruzam no final do filme. Tal como disse anteriormente, o filme é perturbador. Entramos no drama de Leonard Shelby, na sua incessante busca. Vivemos toda a situação intensamente e desejamos que resolva rápido o problema; queremos que confie nas pessoas certas porque estamos a adivinhar o perigo. O facto da acção ser exposta em duas time frames diferentes ajuda a aumentar este efeito e cria uma proximidade ainda maior com a personagem.

A partir daqui, a qualidade dos seus filmes não desapontou. Insomnia (2002), por exemplo, conta com um elenco de peso. Al Pacino encarna um detective que mata acidentalmente um colega. Em consequência disso, entra numa espiral de insónia em noites consecutivas. Este foi mais um filme largamente aclamado pela crítica e também mais um filme desaconselhado a mentes mais frágeis. É um filme pesado, mais um, com uma intensidade que o realizador se tornou perito em conferir aos seus filmes.

Em 2005 inicia então a trilogia do Batman, que ficou concluída este ano com The Dark Knight Rises. Este projecto nasceu como consequência do desejo que Nolan tinha de atribuir um carácter mais negro e violento à história do protector de Gotham City, acreditando que este seria o caminho para revitalizar a personagem, desvalorizada após as adaptações mais recentes.

Estes três filmes contam então com o igualmente grande Christian Bale no principal papel e ficou marcada por diversos acontecimentos, tendo o mais trágico sido a súbita morte de Heath Ledger após a conclusão das filmagens do segundo filme da saga (The Dark Knight), onde interpretou Joker, um dos vilões mais cruéis da banda desenhada. Neste filme deu tudo o que tinha e ficou bem clara a enorme lacuna que deixou no mundo do cinema. Se dúvidas existiam, ficou a prova de que Ledger poderia ter ido muito longe. O óscar foi-lhe inclusivamente atribuído a título póstumo e nem poderia ter sido de outra maneira, dada a sua representação que roçou a perfeição.

Qualquer um dos três filmes desta saga é magnífico e um hino para qualquer apreciador de Batman. Os cenários futuristas (muito inspirados em Blade Runner), juntamente com os tons escuros e frios que pautam a imagem, conferem o tal tom mais obscuro que se pretendia dar a esta história. Este factor levou também a que o sucesso se alastrasse muito além dos apreciadores de banda desenhada.

Os filmes que compõe a trilogia não saíram de seguida. Foram intercalados por outras criações de Nolan. A primeira foi The Prestige, outro enorme sucesso de bilheteiras, que relata a história de dois mágicos do séc XIX que têm como único objectivo superar o outro. Gananciosos, não olham a meios para atingir o objectivo de ser o melhor e desenvolvem uma obsessão brutal que tem tudo para culminar em tragédia. Mas se consideramos que este filme foi um sucesso, então que devemos dizer de Inception, que conseguiu inclusivamente nomeação para o Oscar de melhor filme?

Em 2010 não se falava de outra coisa. Rodeado de um elenco de luxo (Leonardo DiCaprio, Ellen Page, Marion Cotillard ou Joseph-Gordon Levitt), é o filme mais premiado de Nolan até à data, um reconhecimento que estava a tardar em chegar. O filme mostra a história de Cobb, um ladrão perito em espionagem industrial, que rouba ideias ao entrar na mente das pessoas através da criação de sonhos. Recebe uma última missão que, caso resulte, lhe vai permitir recuperar a sua vida. Desta feita, em vez de roubar, tem de plantar uma ideia que fará um homem de negócios desistir do objectivo de se expandir. Dada a dificuldade da missão, reúne uma equipa e, em vez de usarem um nível de sonho só, têm de criar diversos para garantir que tudo corre bem. Este é um daqueles filmes do qual não podemos tirar os olhos do ecrã por um segundo que seja, correndo o risco de nos perdemos nas diversas camadas de cenários e sonhos e já não sabermos bem onde estamos. O filme é extremamente complexo e bem feito, os pormenores não são deixados ao acaso e todas as linhas são tidas em conta. No final, não há pontas soltas apesar das inúmeras vírgulas que pelo meio vão surgindo. Esta é uma obra que nunca poderia ter nascido da mente de qualquer um.

Nolan é um dos grandes. É um daqueles realizadores que já nos põe a aguardar com expectativa as suas próximas obras. Para 2013 espera-se o seu trabalho como produtor em Man of Steel, realizado por Zack Snyder (300), filme baseado na história de Superhomem.

Texto por Cláudia Filipe

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