Fiona Apple -The Idler Wheel…

The Idler Wheel Is Wiser Than the Driver of the Screw and Whipping Cords Will Serve You More Than Ropes Will Ever Do
Fiona Apple, 2012

Fiona Apple, dispensa apresentações e sendo uma cantora em constante ascenção, desde que se iniciou nestas andanças, lança este ano o 4º álbum de estúdio, que esteve no forno durante 7 anos, desde o controverso Extraordinary Machine de 2005. Todo o álbum é como que uma viagem ao interior sentimental de Fiona. Ela assume os seus erros e está decidida a fazer uma análise profunda e a esmiuçar os pontos fracos das suas relações falhadas. Canta como errou em certos aspectos, mas que para dançar o tango são precisos dois, logo não são só sobre as suas fraquezas, estes 10 temas. Ao longo do registo, a raiva vai-se acumulando na voz pesada e melancólica de Fiona, tal como é o fado de muitas relações, a acumulação de pesos cada vez mais difíceis de retirar da balança.

O  começo dá-se com a calma, “Every Single Night”, que com um instrumental muito minimal e com uma atmosfera dreamy, ela diz “I just wanna feel everything”, contrabalançado com um levantar de voz pontual, que lhe junta um aspecto tribal, que é de resto, um dos elementos musicais constantes do disco. “Daredevil”, com uma voz mais ingénua e “acriançada” que canta “I guess I just must be a daredevil/I don’t feel anything until I smash it up”, por cima de um acompanhamento de piano.

“Valentine” é um tema que faz jogos de gato e rato entre o piano e a voz de Apple. Liricamente parece descortinar o que se trata de um amor não correspondido. “I made it to a dinner date/ My teardrops seasoned every plate”, transporta-nos para uma história mal sucedida. Tal como a seguinte, “Jonathan”, que entre uma bateria desastrada e um piano desconcentrado, também encerram uma parte negra de um relacionamento.

Em “Left Alone”, Fiona faz uma introspecção sobre si mesma e declara-se culpada, dizendo que “How can I ask anyone to love me/ When all I do is beg to be left alone?”, por entre um instrumental desnorteado e cavalgante. Confusão e uma Fiona despreocupada e cheia de desalento “Cos i’m hard, too hard to know/ Oh i don’t cry when i’m sad anymore, no no”. É um dos pontos altos do álbum, lírica e musicalmente. “Werewolf”, é uma continuação disso com versos cheios de antíteses que fazem sentido, como por exemplo “But we can still support each other, all we gotta do’s avoid each other”.

Em “Regret”, Fiona deixa de ser calma e passa a soltar toda a sua frustração, berrando aos 4 ventos. É aqui sem dúvida, que Fiona deixa de lamentar o que poderia ter feito melhor, e passa ao ataque, expelindo tudo o que já não pode suportar. “Now all you gotta do’s remind me that we met/ And there ya got me, that’s how you got me, taught me to regret”, é uma declaração fria e ainda maculada sobre o final nada amigável do que foi.

A última, volta a colocar os cânticos tribais em destaque, que de pouco acompanhamento precisam – ouvindo-se apenas um tambor ao longe –  e todas as vozes destas mulheres, brilhantemente intercaladas com a de Fiona, fazem lembrar uma cabeça cheia de vozes que não se calam e necessitam de falar todas ao mesmo tempo, criando a loucura. Fiona acaba o álbum, com a metáfora “If I’m butter – if I’m butter/ If I’m butter, then he’s a hot knife”, na qual se compara a um bocado de manteiga, e a ele a uma faca, e vice-versa. E aqui podemos interpretar de várias maneiras, mas o lado sexual parece ser o mais provável. E assim, se termina um disco, com o tema que mais facilmente nos fica memorizado, e que difere de todos os anteriores.

No fundo, este registo pode ser um resumo dos 7 anos de espera que Fiona nos deu e é muito revelador, muito pessoal. Transporta-nos para um cenário de despojos de uma relação longe de ser perfeita, ou pelo menos estável, que ainda assim, talvez por insistência de uma das partes, ainda subsistiu. É toda uma análise amarga, pontuada por declarações irónicas, e por vezes tentando mascarar sentimentos de negação com uma espécie de apatia.

Texto por Andreia Vieira da Silva

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