The Dark Knight Rises

Era um fim de saga altamente antecipado. Não só porque já neste ano se questionava se este Batman seria capaz de superar o sucesso de Avengers, como, mais importante, se questionava se Nolan seria capaz de se superar a si mesmo e ao seu “Dark Knight” de 2008.

Peremptoriamente, sem desprimor para o Avengers, Dark Knight Rises é francamente melhor. O que não tem em acção por minuto, compensa com uma premissa mais adulta, personagens com mais substância, um vilão mais motivado e convincente e um protagonista mais humano.

Quanto à comparação com o seu antecessor há que fazê-la de forma mais dissecada. Dark Knight Rises é um filme cuja narrativa é mais contida, mais lenta. A primeira metade do filme desenrola-se de forma morosa e perde demasiado tempo com personagens descartáveis, como Dagget e Stryver ,  e a debater o papel de um vigilante numa Gotham pós Harvey Dent.

Acaba por ser a introdução das novas personagens de Catwoman e, particularmente, John Blake a dar alguma dinâmica à primeira metade de Dark Knight Rises.

O veredicto é que, no seu todo, Dark Knight Rises fica abaixo do seu antecessor muito por culpa da sua primeira metade. E por metade, porque ninguém vai de cronómetro para o cinema, refiro-me a toda a porção de filme que antecede o primeiro confronto entre Bane e o Cavaleiro das Trevas. Porque o que acontece a partir daí é só do melhor que já se fez dentro do género de super-heróis . Aliás, de acção. Bem, agora sem medos: é do melhor que já se fez em cinema nos últimos 20 anos.

Nolan é um génio a aliar imagem e som. A cinematografia está simplesmente sublime, enquadra brilhantemente as imagens geradas por computador e imprime uma intensidade avassaladora às cenas. A banda sonora não só é fantástica como inteligentemente utilizada e não retira o espaço que deve pertencer ao silêncio.

As cenas de acção estão muito bem conseguidas e vão buscar elementos inovadores que já vimos em Haywire, de Soderbergh, este ano – acção crua, seca e brutal- e mistura-os com momentos épicos que não podiam faltar.

A narrativa aperta o passo e o “focus” reverte assertivamente para a personagem de Bruce Wayne. Atente-se, Bruce Wayne e não Batman, pois, se os primeiros dois filmes da saga construíram o herói e anti-herói, Dark Knight Rises desconstrói-o e evidencia as suas características humanas. O que realmente se ergue é, não a figura concreta do herói, mas o herói enquanto ideal.

Bane, enquanto vilão é uma das grandes conquistas do filme. Muito mais complexo que Joker, é a amálgama mais que conseguida entre um brutamontes e um “gentleman”. Sofre um pouco com isso e não se torna uma personagem tão imediata como o vilão de “Dark Knight”. Há que esperar até que nos conquiste.

Quanto às prestações do elenco há algumas surpresas.

Christian Bale dificilmente faria um mal papel. Irrepreensível a todos os níveis e timing perfeito nos pequenos momentos de humor.

Anne Hathaway, diga-se, tinha um personagem com a qual não seria fácil ter uma prestação que se destacasse. Sem história de fundo, sem mais do que figurar o antónimo do herói que não vira as costas, Hathaway cumpre o que se lhe pede mas nada mais.

Tom Hardy não desaponta com o seu Bane, de longe a personagem mais complicada, e sai ileso de um papel que se sabia vir a ser o mais escrutinado.

As duas grandes surpresas deste filme são: Joseph Gordon-Levitt e Michael Caine.

Joseph Gordon-Levitt faz do seu John Blake a personagem mais interessante do filme. Soube dar a profundidade necessária a Blake e , tal como Heath Ledger o havia feito, conseguiu por mais do que uma vez roubar o protagonismo para si.

Quanto a Michael Cain, no seu quase irrelevante Alfred, há que dizer sem complexos: é dele o melhor momento de representação de todo o filme. Não podem ser mais do que uns minutos, mas a forma com Michael Cain se entrega às suas cenas é uma lição de como se deve representar.

Só em relação a Gary Oldman e Marion Cotillard é que não se percebe o subaproveitamento dos actores.

A análise política vou abster-me de a fazer. Sim, Dark Knight Rises soa um bocado à demonização do socialismo ou da democracia, na perspectiva aristotélica, não nego, mas o mais certo é que a maioria dos espectadores vá ao cinema ver  Dark Knight Rises na expectativa de ver coisas a ir pelos ares e não para decidir inclinações políticas, por isso falho em ver o que isso releva.

Certo é que Nolan termina a trilogia como tinha que ser. Não é perfeito, como a euforia generalizada parece querer fazer querer, e Nolan não soube evitar alguns clichés perfeitamente desnecessários. No entanto, nada que desvirtue, por aí além, a obra do realizador que nos fez esquecer que o Batman já teve mamilos.

Doravante, quando Batman voltar ao grande ecrã, será sempre este o Cavaleiro das Trevas a servir de peso e medida.

Texto por Jorge de Almeida

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