Emilie Autumn – Fight Like a Girl

Fight Like a Girl
Emilie Autumn, 2012

Bipolar, vítima de abusos sexuais e violação desde os seis anos, uma experiência traumática de aborto que a levou a tentar suicídio e consequente internamento num hospital psiquiátrico. Não é uma vida das que se possa considerar mais fáceis e menos preenchidas e, se a Emilie Autumn fosse daquelas velhotas que se reúnem a debater quem é que tem a vida pior, ninguém lhe ganharia. No entanto, no meio de todo o negrume que envolve a vida da talentosa artista, ela consegue obter suficiente positivismo para arrancar muita inspiração dessas experiências.

E era isso que bem se sentia no antecessor “Opheliac” – se não contarmos com um registo de música clássica pelo meio. Emilie Autumn sempre singrou em escrever canções negras, pessoais, de uma pesada carga psicológica e ainda acrescentando, quando pode, uma dose grossa de sentido de humor negro. Se juntarmos isso à sua capacidade em escrever canções viciantes e orelhudas, com muita boa melodia a envolver aquele mistério e obscuridade dos temas, juntamente com a sua originalidade de género – que ainda não creio que exista mais alguém a fazer algo parecido sequer –, temos, então, uma fórmula para fazer tremendos discos impressionantes. Era esse o fascínio que envolvia “Opheliac” e ainda se sentem os efeitos desse registo.

Com tal género único – descreva-se vagamente a sua abordagem electrónica e clássica a canções “pesadas” ou a números de cabaret – ela ainda tinha pano suficiente para tecer um novo disco na mesma onda que o anterior sem ficar gasto. Mas mesmo assim, a mentalmente instável mas genial jovem, decide variar e apresenta-nos um “Fight Like a Girl” com uma abordagem diferente do seu impressionante antecessor. Foi baseada na sua estadia no asilo que escreveu um romance com cariz tanto fictício como autobiográfico. Mas isso não foi suficiente, dando-nos agora uma banda sonora para acompanhar e estará para vir o consequente musical ao vivo – conseguirá ser ainda mais teatral que as suas habituais performances?

Daí que esta nova estrutura seja diferente daquele conjunto de canções a que ficámos acostumados em “Opheliac”. Aqui conta-se uma história, a história das pacientes injustamente maltratadas do manicómio que se revoltam com o intuito de escapar, logo vão haver passagens diferentes, vão haver curtos interlúdios e até momentos instrumentais a representar momentos de alta tensão irão aparecer por aqui. Mas até só enriquecem o álbum. Se procurarem aquelas habituais melodias pegajosas mas incomuns que já se tornaram características de Autumn, também não têm porque se preocupar: logo desde a faixa-título de abertura que ficarão totalmente seduzidos. Mais temas com este esqueleto se encontrarão em títulos como “Time for Tea”, “Take the Pill” – e o seu estranho sobejo de bateria quando as batidas são geralmente electrónicas – , “If I Burn” ou nas mais melancolicamente arrastadas “Gaslight” e “Goodnight, Sweet Ladies”.

E se venerarem mesmo aquelas canções bem recheadas de sequências agradavelmente repetitivas – diga-se por exemplo músicas como “God Help Me”, “Liar” ou “I Want My Innocence Back” –, então sobressai-se positivamente a esperançosa faixa de conclusão “One Foot in Front of the Other”.  Se ainda quiserem mais factores associáveis a Emilie Autumn que ela sabe cumprir perfeitamente à sua maneira, destaquam-se também o simultaneamente perturbador e agradável ambiente de “Scavenger” ou como não podia faltar, um momento humorístico que cabe ao número de cabaret “Girls! Girls! Girls!”. As ligações com “Opheliac” estão bem evidentes e “Goodnight, Sweet Ladies” até leva “The Art of Suicide” na bagagem. As mudanças são poucas e bem executadas para que isto soe familiar mas fresco.

Por aí já temos um álbum completo e muito mais que satisfatório para fãs da Emilie Autumn que salivavam por este registo. Se houver espaço para se atafulhar mais pormenores que tornem este disco tão completo então que se saliente também a sua estrutura conceptual. “Fight Like a Girl” segue uma linha de enredo em que um grupo de mulheres não tão doidas como as fazem parecer, se fartam dos abusos que sofrem no hospital psiquiátrico e juntas preparam uma revolta para fugir. Até nem é um conceito novo, mas tanto a sua abordagem como musicalmente são os aspectos que mais inovam aqui. É um contar de história muito bem entregue, porque por muito duvidoso que achem o conceito de uma data de loucas a prepararem-se para fugir, assim que chega a “The Key” já estão a torcer pela Emilie e pelas suas companheiras. Fica uma positiva mensagem de esperança; unm começar de novo em “One Foot in Front of the Other”, após a emocional despedida de “Goodnight, Sweet Ladies”.

O único pecado que alguns fãs podem apontar que cause alguma comichão por um breve momento é o reduzido uso de violino. Não é só pela mistura única de música clássica com electrónica ser fascinante, Emilie Autumn é também uma estupenda violinista e apesar dos seus múltiplos talentos que transmite num disco, é o seu trabalho ao violino que muitos destacam. O violino ainda está presente mas em minoria e fica um pouco guardado para o fundo, logo também não existe aqui nenhuma “Dominant” ou uma “Largo for Violin” para quem quiser apreciar um lindíssimo número de cordas sentimentais e cantantes.

Mas até se consegue dispersar de tal, após tão envolvidos no disco. Afinal de contas, Emilie Autumn consegue mais uma vez suceder em apresentar um fortíssimo trabalho, cumprindo com sucesso a missão de bem suceder a “Opheliac”. Com uma abordagem musical que lhe permitiria quase criar um “Opheliac, Part 2”, Autumn não se deixou ficar no conforto e lá procurou inovar um pouco mais ainda. E se há problema que esta beleza certamente não tem é falta de identidade.

Texto por Christopher JRM

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