Texto por Andreia Vieira da Silva / Fotos por Hugo Rodrigues
Sem banda de abertura e com um intervalo entre duas partes distintas de um concerto, como se de uma sessão de cinema se tratasse. A noite de ontem foi só dos norte-americanos Yo La Tengo.
Sensivelmente depois das 21h, hora marcada para o início das festividades, o trio sobe a um palco cuidadosamente decorado, que além dos instrumentos meticulosamente arrumados, mostrava três árvores que pareciam ter sido tiradas de um jardim infantil. Com um desenho simples, uma ilustração infantil, aqueles três elementos claramente faziam referência ao novo álbum de originais da banda, Fade, lançado este ano. É o décimo terceiro álbum da banda de Hoboken, e prova o quanto os Yo La Tengo têm vindo a consolidar a carreira desde o seu aparecimento em 1984.
A primeira canção da noite é a primeira faixa do último disco. “Ohm” dá o mote a um alinhamento de canções em formato acústico, com guitarra acústica, baixo, bateria e teclados, que se vão intercalando. A luz que ressalta através dos cortes feitos estrategicamente nas “folhas” das árvores reflectem projecções de luz no tecto do auditório, o que eleva a misticidade da coisa.
Tal como o cenário, o desfile de canções tem uma magia pueril. Cerca de seis faixas compõe este primeiro repertório, mais calmo e de embalar. Desde passagens de Fade, como “Two Trains” e “I’ll Be Around”, até “Demons”(do filme I Shot Andy Warhol) e “The Point of It”. Entretanto o trio vai conversando entre si, depois de agradecer ao público por se ter dirigido à Aula Magna naquela noite, e Ira Kaplan convida até quem está sentado no anfiteatro a ocupar os lugares mais à frente, nos doutorais. Diz que são uma banda calma e que não vão saltar para cima da audiência e tirar as tshirts, por isso não há perigo.
Após o “pequeno” intervalo que acaba por chegar a quase meia hora, a banda volta, já com o palco alterado, com mais espaço entre os instrumentos, o que leva a crer que agora o trio se irá mexer com fartura, e as bonitas árvores estão em segundo plano.
Assim que entram, nota-se um claro aumento de volume, e esta parte do concerto será certamente mais electrizante. Começando por “Nothing to Hide”, de Popular Songs, de 2009, que se inicia logo com arrojo, puxando pela distorção. É logo no primeiro minuto que sentimos um cheiro a anos 90. A “Sudden Organ” (Painful, de 1993), segue-se “Is That Enough”, de Fade, e “Tom Courtenay” de 1995, todas elevadas ao rubro.
O público também não se contém em gritar para o palco, e Kaplan não se coíbe de responder, o que provoca gargalhadas gerais. “I’m not hearing”, diz ele, quando alguém lhe dirige umas palavras em português. Quando um rapaz grita “The Story of Yo La Tango”, uma faixa do álbum de 2006, I’m Not Afraid of You and I Will Beat Your Ass, ele responde que este concerto “já é a história dos Yo La Tengo”. E de facto, todo o alinhamento, vai buscar pedaços de todos os tempos passados, e inclui também os pedaços mais jovens, é toda uma viagem, que começou perto das 21h e termina à meia-noite, com dois encores, músicas pedidas por quem está mais perto do palco, várias salvas de palmas, e uma alegria estampada no rosto de todos.














