Ninfomaníaca – Volume 1 e 2

Ninfomaníaca - Vol.1 e Vol.2

Ninfomaníaca é dos filmes mais violentos a que alguma vez assisti. Esta afirmação não resulta de uma particular sensibilidade a cenas chocantes ou de dor explícita, já que dificilmente desvio o olhar de cenas mais dolorosas. A violência de Ninfomaníaca não está nos espancamentos, não está no bebé que quase cai da varanda (piscadela de olho do realizador ao seu filme Anticristo, de 2009), não está nas fortíssimas cenas de sexo sadomasoquista, na morte de um pai, tampouco está na separação de quem se ama – seja de um amante ou de um filho.

É conhecido o tom provocador de Lars Von Trier e a sua procura de chocar e torturar os espectadores com cenas de uma crueldade atroz. No entanto, diria que a violência, em Ninfomaníaca – Volumes I e II, tal como noutros filmes seus (como o memorável Dogville ou o Palma de Ouro Dancer in the Dark, por exemplo), não está nas imagens de medo, de sangue, na dor, na tortura ou nos corpos mutilados. A violência está em todas estas cenas, mas não é por isso que o filme é violento. A violência está na tirania com que o realizador nos impõe uma visão (esfrega-a na cara do espectador, tortura-nos com ela, impede-nos de vermos mais para além do que ele nos mostra e diz, bombardeando-nos com referências cruzadas que usualmente temos liberdade nós mesmos de seguir) quando, ao mesmo tempo – exactamente ao mesmo tempo –, levanta dúvidas capazes de nos fazer questionar profundamente a visão que antes nos impôs. É nesse universo confuso, sombrio e doloroso que nos vamos instalando, ao longo de Ninfomaníaca, e a violência é estar nesse lugar.

Joe, a protagonista, é encontrada caída no chão, num beco, pelo solitário Seligman (Stellan Skarsgård) que a leva para o seu apartamento e a cuida. Sentada na cama, enquanto bebe o chá preparado por Seligman e recupera do espancamento que a levou até ali, Joe conta a sua história desde a infância, passando pela adolescência (Stacy Martin interpreta a jovem Joe) até àquele momento, com 50 anos (interpretada por Charlotte Gainsbourg). A narrativa é sobretudo cronológica, contada em 8 capítulos, sendo o segundo volume mais centrado na vida adulta da protagonista. A história é longa, condensada numa versão censurada de 4 horas (no total), sendo que a versão sem cortes (mais longa uma hora e meia e que inclui mais close-ups de genitais, diz a produtora) chegará ao público no decorrer de 2014.

Mea Vulva

Alguns episódios que Joe relata incluem referências a uma mãe fria (Connie Nielsen) e ao pai presente (Christian Slater) com quem tinha o ritual de se passear pela floresta, descobrindo os diferentes tipos de folhas. Há memórias das aulas de ginástica, em que subia a corda e ficava no alto, pressionando o corpo contra a corda até ao orgasmo. Há, ainda, lembranças de quando, já adolescente, fazia apostas com a amiga B. (Sophie Kennedy Clark), da  irmandade de adoradoras da Vulva que ambas criaram, para ver quem conseguia ter mais vezes sexo, com homens diferentes, numa viagem de comboio. Um dos episódios mais marcantes é a de uma mulher, a Sr.ª. H (Uma Thurman), que, altamente perturbada pela traição do marido, leva os filhos (de não mais de 8 anos) a conhecer o quarto de Joe, dizendo que iriam ver um dos sítios preferidos do pai, onde ele tem passado grande parte do seu tempo.

A história que Joe partilha é cruzada, constantemente, com referências que Seligman vai introduzindo, seja associações com literatura, música, religião, seja com comparações com o universo da natureza, como a pesca. Seligman coloca o espectador dentro do filme, assumindo, de certa forma, o nosso lugar, por colocar questões que também nós gostaríamos de colocar ou fazendo comentários que também nós poderíamos fazer. As associações que Seligman faz parecem tomar também o espaço do espectador. Ao mesmo tempo que nos sentimos roubados na liberdade de associação, tal é o bombardeamento de referências de Seligman, somos levados a outras associações a partir daquelas, ficando nessa espiral de referências cruzadas, procurando ligações subliminares entre vários mundos, ideias e questões.

A partir dessa teia de relações, indo à procura de pistas para parte das questões que Von Trier vai suscitando, dei por mim a ler os ensaios sobre a teoria da sexualidade, onde Freud lança as bases da teoria que relaciona a sexualidade na infância com a sua vivência na fase adulta. A associação não é de estranhar, quando a visão que nos é dada é a da sexualidade como vício, como um problema, como uma procura obsessiva de parceiros sexuais, como doença, patologia, enfim. A retórica dos muitos cartazes do filme, ao mostrar rostos em momentos de prazer, coloca o foco no deleite, mas só quem esquece o que Von Trier já fez é que pode esperar algo que não seja do domínio do tormento. Ninfomaníaca nega a visão, não tão incomum quanto isso, de que a “hipersexualidade” se traduz numa vida recheada de sexo prazeroso e diversidade de parceiros.

Nymphomaniac

A tónica no domínio do problemático, em detrimento do prazeroso, fica reforçada na figura de Seligman, uma espécie de padre que vai conduzindo Joe à redenção, apesar de Joe considerar que o seu único pecado seja ter sempre “exigido demasiado do pôr-do-sol” – como se não fosse mau o bastante dizê-lo uma só vez, Joe repete esta frase no final do filme. Diria que mais do que padre, Seligman porventura seja a figura de um psicólogo que escuta sem julgar, criando espaço para que Joe se pense de outra forma, entendendo que pode transformar-se. Pesquisando no google, a primeira referência ao nome “Seligman” é a de um psicólogo norte-americano, autor de vários livros de auto-ajuda, ex-presidente da Associação Americana de Psicologia. Talvez Lars Von Trier tenha escolhido este nome porque é de origem judaica (como a personagem explica) e o realizador quisesse apenas criar um espaço para poder falar da diferença entre anti-semitismo e anti-sionismo (como faz, através das falas de Seligman), numa outra piscadela de olho a si próprio, desta vez lembrando a sua afirmação, em Cannes, de que compreendia Hitler. Talvez seja apenas isso, mas não deixa de ser irónico que esse seja também o nome de um famoso psicólogo que, simplificando, desenvolve a teoria de que face a determinadas situações, aprendemos que somos impotentes para as mudar, mesmo que tenhamos, de facto, poder para as alterar (chamado, numa das traduções possíveis de “Learned Helplessness”, “desânimo apreendido”). Não é exactamente isto que faz Seligman, a personagem, ao conduzir Joe, através do diálogo e do pensamento sobre si mesma, à reinterpretação da sua vida e à ideia de que aprendeu a sentir que não podia mudar, para descobrir que, afinal, tem poder para alterar o curso da sua história?

Talvez já esteja a entrar no domínio da conspiração, vendo ligações demasiado rebuscadas, mas é exactamente a isso que Von Trier nos conduz. E seguindo nesse domínio, diria que há algo de particularmente intrigante na extrema proximidade com o pai e na frieza da mãe (do que se distanciaria aquela mãe, afinal? Teria visto algo que preferia negar que existia, naquela família?).  E poderíamos continuar com as suspeitas, arrastados que somos, em Ninfomaníaca, para um mundo de ligações possíveis, intrigantes, por vezes perversas que vão tirando camadas de cima de camadas, entrando nesses lugares escuros e fundos do qual talvez não se saia mais.

Nymphomaniac_

Tirânico, como já atrás disse, Von Trier impõem-se a cada plano, a cada diálogo, em cada música escolhida. Se começamos a desenhar um paralelo entre os planos da árvore solitária no cimo da montanha e a imagem de Joe também ela só no cimo da outra montanha, por exemplo, logo Von Trier tem de verbalizá-lo, colocando a própria Joe a estabelecer essa mesma ligação. Se começamos a pensar que se Joe fosse um homem talvez os padrões de avaliação da frequência e número de parceiros sexuais não fossem exactamente os mesmos, logo Von Trier tem de colocar uma personagem a dizê-lo. É como se o realizador quisesse sempre ter a palavra final, deixando pouco espaço para o espectador.

Da palavra à imagem e ao som, tudo aparece hiperbolizado: se Joe coloca fogo num carro estacionado em frente de uma mansão, a música é também sobre um fogo ateado (ainda que a uma casa), por via dos Talking Heads; na cena final, quando Joe vai embora e nós nos perguntarmos para onde poderá ela ir, logo a música “Hey Joe”, de Jimi Hendrix, tem de perguntar também “Where you goin’ to run to now, where you, where you gonna go?”.

Aí, já sem a dureza enérgica da música de Rammstein que se ouve no início e sem o órgão de Bach com o qual termina o capítulo V, ficamos suspensos na pergunta de Hendrix – e nas muitas de Von Trier -, enquanto Charlotte Gainsbourg (a própria, não a personagem) canta “Hey Joe”. Termina, assim, a chamada trilogia da depressão (depois de Anticristo, 2009 e Melancolia, 2010). “Hey, hey, hey Joe / You better run on down / Goodbye everybody”.

Texto de Salomé Coelho

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